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Mostrando postagens de janeiro, 2026

ali, então - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia  1919 - 2004 ]        ALI, ENTÃO  Ali, então em pleno mundo antigo  À sombra do cipreste e da videira  Olhando o longo tremular do mar  Num silêncio de luas e de trigo  (Como se a morte a dor o tempo e a sorte   Não nos tivessem nunca acontecido)  Em nossas mãos a pausa há-de poisar  Como o luar que poisa nas videiras  E em frente ao longo tremular do mar  Num perfume de vinho e de roseiras  A sombra da videira há-de poisar  Em nossas mãos e havemos de habitar  O silêncio das luas e do trigo  No instante ameaçado e prometido  E os poemas serão o próprio ar  — Canto do ser inteiro e reunido —  Tudo será tão próximo do mar  Como o primeiro dia conhecido      [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]    . . . . .  .  .  . texto metalinguístico, traz um caráter reconstrução, nos versos. vejam, há a necessidade de uma p...

um poeta clássico - sophia de mello breyner andresen - comentário

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  [ sophia 1919 - 2004 ]     UM POETA CLÁSSICO   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo:   Prumo esteio coluna   Combate esculpido nas métopas do templo   Una e múltipla   Cada encontro a recomeça:   Agudo gume quando a música ressoa   Venenosa rosa do junho mais antigo   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo   Nem integrada nem assumida   Apenas companheira   Segunda mão poisada sobre a mesa   Mão esquerda   Companheira serena   Das coisas serenas:   Parede livro fruto   E fogosa condutora dos desastres   Que nos esperam em seus pátios lisos         [ S ophia de Mello Breyner - G eogr a fi a 1967 ]    . . . . .  .  .  .            n ota _        métopa -   espaço existente entre dois tríglifos de um friso dórico (arquitetura)   ...

crianças e adolescentes em tempos de crise climática

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  não é só isso   [ leituras de cotidiano ]                                               Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo, como as enchentes  no Rio Grande do Sul em 2024,  que afetaram milhões de pessoas e interromperam o acesso à educação, saúde e moradia,  o Instituto Alana lança, em parceria com o Conanda (Conselho Nacional dos  Direitos da Criança e do Adolescente) e Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o guia “ Cuidar e proteger: infâncias e adolescências em tempos de crise climática ”, que busca fortalecer e ampliar o alcance do documento " Recomendação do Conada para proteção integral de crianças e adolescentes em situação de riscos e desastres climático s" , publicado em 2024.  O material, apresentado durante a Semana nacional de enfrentamento à violência sexual contra...

desenredo - paulo cesar pinheiro e dori caymmi

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          não é só isso          _ ajudando quem tem dificuldade com leitura _                    D E S E N R E D O            Caymmi & P Cesar Pinheiro   Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo   A morte tece seu fio de vida feita ao avesso   O olhar que prende anda solto   O olhar que solta anda preso   Mas quando eu chego eu me enredo   Nas tramas do teu desejo   O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo   A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo   O olhar que assusta anda morto   O olhar que avisa anda aceso   Mas quando eu chego eu me perco   Nas tranças do teu segredo   Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou   Vou-me embora pra bem longe   A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço   A morte que a vida anda armando, a vida que a morte a...

aprendendo fora da sala

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      não é só isso  [ leituras de cotidiano ]      alexandre beck postagem para ajudar quem tem dificuldade com interpretação de texto veja se você compreendeu, a partir do que escrevo aqui:  a tirinha não está dizendo apenas que “às vezes não ter aula pode ensinar algo”. a conversa entre adulto e criança  sugere que a experiência fora da escola , também produz aprendizado — tão  marcante quanto o conteúdo formal. olhe: de repente é feriado e a criança questiona sobre não ir à escola. então, vale a explicação e tome aprendizado. de repente, não ter aula, é a consequência de um incidente como uma greve: mais explicações sem rodeios. na lata :  aprender não se limita à sala de aula. o que se aprende ali perde força se não encontra a prática da vida. agora, a prática, sozinha, sem estudo e sem reflexão, também se esvazia. a tirinha não é apenas sobre menino que está descontente por não ir á escola. não é só isso.  se quem leu per...

de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação terminada, morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria de que algo ficasse consigo. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio. peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem...

caminho - sophia de mello breyner - comentário

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             CAMINHO   Na marcha pelo deserto eu sabia   Que alguns morreriam   Mas pensava sob o céu redondo   — Onde   O limite do meu amor da minha força?   E eis que morro antes do próximo oásis   Com a garganta seca e o peso   Ilimitado do sol sobre os meus ombros   Eis que morro cega de brancura   Cansada demais para avistar miragens   Eu sabia   Que alguém   Antes do próximo oásis morreria      [ S ophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]    . . . . . .  .  .  .   . aqui, o eu lírico está enfraquecido pela caminhada, pelo viver. curzar um deserto é senso comum de sofrimentos. sempre há os que não conseguem e sempre há os que morrem. uma pergunta ecoa, no texto: onde o limite do meu amor...? -- depois, segue-se o sofrimento e a morte. o eu poético está seguindo pelo deserto com outras pessoas. isso pesa. a questão é: por qu...

canto das três raças - paulo cesar pinheiro - resenha

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                                         CANTO DAS TRÊS RAÇAS    Ninguém ouviu um soluçar de dor    No canto do Brasil.    Um lamento triste sempre ecoou    Desde que o índio guerreiro    Foi pro cativeiro e de lá cantou.    Negro entoou um canto de revolta pelos ares    No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.    Fora a luta dos inconfidentes    Pela quebra das correntes.    Nada adiantou.    E de guerra em paz, de paz em guerra,    Todo o povo dessa terra    Quando pode cantar,    Canta de dor.    E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.    Ai, mas que agonia    O canto do trabalhador...    Esse canto que devia ser um canto de alegria    Soa apenas como um soluçar de dor       [ CLA...