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Mostrando postagens com o rótulo desejo

sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

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                                              gilka machado 1893 - 1980       Rio   Da pétrea catedral de esplêndida cascata,  como de monjas longa e estranha procissão,  de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,  entoando religioso e frio cantochão.  E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,  ronca o rio raivoso em plena solidão,  e toda a frágil flor ripícola arrebata,  sepultando o que nele achara berço, então.  Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,  em seu constante curso ele os manifesta  todas as vibrações vitais do humano ser.  E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,  um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber  o ventre virginal e verde da floresta.                Gilka Machado - C ristais partido s, 1915    ...

bunda - carlos drummond de andrade

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  [ vênus calipígia, séc II a.c ]            A  BUNDA    A bunda, que engraçada.    Está sempre sorrindo, nunca é trágica.    Não lhe importa o que vai    pela frente do corpo. A bunda basta-se.    Existe algo mais? Talvez os seios.   Ora — murmura a bunda — esses garotos   ainda lhes falta muito que estudar.   A bunda são duas luas gêmeas   em rotundo meneio. Anda por si   na cadência mimosa, no milagre   de ser duas em uma, plenamente.   A bunda se diverte   por conta própria. E ama.   Na cama agita-se.   Montanhas  avolumam-se, descem.  Ondas batendo   numa praia infinita.   Lá vai sorrindo a bunda.    Vai feliz   na carícia de ser e balançar.   Esferas harmoniosas sobre o caos.   A bunda é a bunda,   redunda.       [ c. drummond de andrade, " amor natural ", 1992 ]   . ...

teresa teresa

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                     [ tereza em êxtase - d etalh e - autor: bernini] o conjunto de mármore e bronze "êxtase de santa tereza"  ( bernini, séc 17 ), dá conta de um estado marcante de contraste, no estilo barroco. um jovem risonho como um escobar machadiano, segura uma seta fálica bem acima da figura feminina, envolta em panos teocêntricos. ela parece mesmo em êxtase. está na igreja santa maria da vitória, roma.   " estou-me a vir " , como dizem as portuguesas, seria bom nome para essa  obra escandalosa aos valores do século 17.  o jovem, apesar das asas cristãs, bem lembra cupido, filho de vênus, figura tão cara aos amantes universais. e pagãos! tereza é dita " santa " . viveu no século 16 e registrou em texto seus encontros intensos e divinos com jesus -- ou similar. encontros físicos! está no " libro de la vida ". pesquisa e crê. é o desejo fazendo esparramas.               ...