Postagens

Mostrando postagens com o rótulo amor

de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria que algo ainda lhe pertencesse. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio e o peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a me...

desejo que mata

Imagem
  [ fernando g - níquel náusea ] o desejo. de onde ele vem ? como vive? como se reproduz? aquilo que move. isso: desejo é o que move. para descartes, séc 18, o tal desejo é uma espécie de agitação da alma. como a definição de alma é algo por demais contraditório e quase lúdico, pulemos descartes.  mas o desejo é algo que nos incomoda porque geralmente o que se deseja pode estar longe, então entramos em crise de ansiedade. agora, quando o  desejado fica apenas na cabeça de quem deseja, daí vira artista.  e jeremias? o jeremias da tirinha desejava não desejar e por isso morreu? ou jeremias desejava morrer, então pediu para não ter desejos? é isso?

quadro polêmico sobre vender amores

Imagem
                                        [ a vendedora de amores, j. vien, séc 18 ] vem do século 18 a tela de joseph vien, "a vendedora de amores ", em que uma moça, humilde, ajoelha-se numa rica sala, diante de figura nobre e sua acompanhante. a singela vendedora tira de uma cesta um míni-bebê, pela asa, sob o olhar embaçado da provável compradora. não é um anjinho, vou avisando. trata-se de representação do filho de vênus, o cupido. o nome "amor", no plural, indica tudo. amor, cupido. olhem, o mercantilismo iria se transformar no capitalismo, já sabem e era importante marcar posição através daquilo que o dinheiro pudesse comprar. os amores, na cesta, são novos, gordinhos, parecem inofensivos. talvez sejam. a questão é o motivo que leva à compra. as figuras femininas, na cena, irão usar a compra juntas? comprarão um amor para cada uma?... é para presente?... fiquem à vontade. em francês...

palavra e pulso

Imagem
  " Um fóssil de um dinossauro que viveu há cerca de 230 milhões de anos e, provavelmente, tinha 2,5 metros de comprimento foi encontrado por pesquisadores ligados à Universidade Federal de Santa Maria (UFMS) em um sítio fossilífero localizado no município de São João do Polêsine, interior do Rio Grande do Sul. (...) "                              [tv cidade10 - julho 2024]    . . . . . .  .  .  .   .   . não tenho conta de quantas vezes fiquei olhando pela janela procurando dinossauros ou então aqueles ptero–qualquer-coisa que voam e gritam é imagem recorrente procurar, em cenários amplos, essas criaturas que de tão distantes ficam no imaginário e quase se transformam em mitos...  ter dinossauro de estimação é bom porque eles demoram pra morrer e, mesmo depois de extintos, continuam vivendo hoje gozando debaixo da terra  surgem adultos muitas vezes já ...

pedras no sapato

Imagem
  no livro " f elicidade ", gianetti expõe que no século 18, o período iluminista apresentava uma equação que pressupunha uma harmonia entre a busca da felicidade e o progresso da civilização.  não é de hoje que se tem como senso comum que mais conforto material pode gerar melhoria nas ansiedades e até mais longevidade. o romance " a cidade e as serras " (séc 19) do eça de queiroz, vai na mesma linha, quando resume a felicidade ao grau de civilidade de uma pessoa. no final do livro, a teoria é mudada, mas fica o registro de um senso comum à época de eça: civilização é tudo.   hoje, por onde houver um estudante de classe média fazendo vestibular, país afora, saberemos que a busca é por um curso que "dê dinheiro". nenhum curso dá dinheiro, a gente sabe, mas essa ideia é a cenoura na frente do cavalo. é a busca de uma felicidade que despreza o lado humano da coisa. e o que nasce primeiro : a busca de felicidade ou a do dinheiro ?  o iluminismo perdeu ?   ....

teresa teresa

Imagem
                     [ tereza em êxtase - d etalh e - autor: bernini] o conjunto de mármore e bronze "êxtase de santa tereza"  ( bernini, séc 17 ), dá conta de um estado marcante de contraste, no estilo barroco. um jovem risonho como um escobar machadiano, segura uma seta fálica bem acima da figura feminina, envolta em panos teocêntricos. ela parece mesmo em êxtase. está na igreja santa maria da vitória, roma.   " estou-me a vir " , como dizem as portuguesas, seria bom nome para essa  obra escandalosa aos valores do século 17.  o jovem, apesar das asas cristãs, bem lembra cupido, filho de vênus, figura tão cara aos amantes universais. e pagãos! tereza é dita " santa " . viveu no século 16 e registrou em texto seus encontros intensos e divinos com jesus -- ou similar. encontros físicos! está no " libro de la vida ". pesquisa e crê. é o desejo fazendo esparramas.               ...

amor é um fogo que arde sem se ver - camões - comentário

Imagem
                                                                        [ luiz vaz de camões 1524 - 80 ]    Amor é um fogo que arde sem se ver;   É ferida que dói, e não se sente;    É um contentamento descontente;   É dor que desatina sem doer.    É um não querer mais que bem querer;   É um andar solitário entre a gente;    É nunca contentar-se e contente;    É um cuidar que ganha em se perder;   É querer estar preso por vontade;    É servir a quem vence, o vencedor;   É ter com quem nos mata, lealdade.    Mas como causar pode seu favor    Nos corações humanos amizade,   Se tão contrário a si é o mesmo Amor?      . . . .  .  .    .     . soneto pub...

a rosa - narcisa amália - comentário

Imagem
            A ROSA    -    Narcisa Amália         Que ímpia mão te ceifou no ardor da sesta          Rosa d'amor, rosa purpurea e bela?                             Almeida Garrett     Um dia em que perdida nas trevas da existência Sem risos festivais, sem crenças de futuro, Tentava do passado entrar no templo escuro, Fitando a torva aurora de minha adolescência. Volvi meu passo incerto à solidão do campo. Lá onde não penetra o estrepitar do mundo: Lá onde doura a luz o báratro profundo, E a pálida lanterna acende o pirilampo. E vi airosa erguer-se, por sobre a mole alfombra. De uma roseira agreste a mais brilhante filha! De púrpura e perfumes - a ignota maravilhal! Sentindo-se formosa, fugia à meiga sombra! Ai, louca! Procurando o sol que abrasa tudo Gazil se desatava à beira do caminho; E o sol, ébrio de amor, no ...

a solidão - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
                                                                  [ cristo de la expiración - francisco gijón  séc 17 ]            6.  A solidão    A noite abre os seus ângulos de lua    E em todas as paredes te procuro    A noite ergue as suas esquinas azuis    E em todas as esquinas te procuro    A noite abre as suas praças solitárias    E em todas as solidões eu te procuro    Ao longo do rio a noite acende as suas luzes    Roxas verdes azuis.    Eu te procuro.      [ O cristo cigano,  1961 , Sophia de M B Andresen ]    . . . . . .  .  .  .   .   .    . este é o sexto poema de "o cristo cigano".  a ...

aflita - narcisa amália - comentário

Imagem
      AFLITA   Per lui solo affido sull' ali dei venti Il suon lusinghiero di garruli accentil Deh riedi, deh riedi... mi stringi al tuo cor E giorni beati vivremo d'amor!             Il Guarany   Desde a hora fatal em que partiste, Turbou-se para mim o azul do céu! Velei-me na mantilha da tristeza, Como Safo na espuma do escarcéu! Até então o arcanjo da procela Não enlutara o lago das quimeras, Onde minh'alma, garça langorosa, Brincava à luz de etéreas primaveras. Mas um dia atraindo ao vasto peito Minha pálida fronte de criança, Murmuraste tremendo: "Parto em breve: Mas não te aflijas, voltarei, descansa!" Ai! Que epopeia túrgida de lágrimas Na comoção daquela despedida! Eu soluçava envolta em véu de prantos: "Quando voltares, já serei sem vida!" Desde então, comprimindo atrás angústias, Vou te esperar à beira do caminho; Voltam cantando ao sol as andorinhas, Só tu não volves ...

quem sou

Imagem
[ abolição via vargas - 2021 ]           carlos henrique carneiro , natural ribeirão preto, sp                              - nasce no hospital são francisco, dezembro de 1964 1966: ano internacional do arroz - com quase dois anos, já come 1967: morre guimarães rosa -- não fica sabendo 1972: entra na primeira série, ensino fundamental -- chamado de "grupo escolar". escola "guimarães júnior". professora: noêmia 1982: escreve crônicas e poemas enquanto estudante de ensino médio. chega a publicar poesias, " poeta em construção ", edição do autor, como se vê na foto. ainda 1982, participa de movimento civil contra o fim de um parque, na cidade de ribeirão preto. houve uma vigília, no local, com dezenas de outras pessoas, maioria estudante. coordenação de eduardo dos santos, professor no ensino médio. por conta disso, vira personagem de livro, aos dezessete anos. o " deus me livre ", de luiz p...