ali, então - sophia de mello breyner - comentário

 

[ sophia  1919 - 2004 ]

      ALI, ENTÃO

 Ali, então em pleno mundo antigo
 À sombra do cipreste e da videira
 Olhando o longo tremular do mar
 Num silêncio de luas e de trigo

 (Como se a morte a dor o tempo e a sorte
  Não nos tivessem nunca acontecido)

 Em nossas mãos a pausa há-de poisar
 Como o luar que poisa nas videiras
 E em frente ao longo tremular do mar
 Num perfume de vinho e de roseiras
 A sombra da videira há-de poisar
 Em nossas mãos e havemos de habitar
 O silêncio das luas e do trigo
 No instante ameaçado e prometido

 E os poemas serão o próprio ar
 — Canto do ser inteiro e reunido —
 Tudo será tão próximo do mar
 Como o primeiro dia conhecido

     [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]

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texto metalinguístico, traz um caráter reconstrução, nos versos.

vejam, há a necessidade de uma pausa, um momento de intervalo, sem dor, sem destino prévio -- como se lê nos versos entre parêntesis. é dessa pausa que o poeta precisa, pois o momento é frágil ("ameaçado")

o eu lírico se prepara para expor seus versos e precisaria desta pausa, ante o mar, o vento e o silêncio, ao contrário dos ruídos modernos. a calma pousa, ela não cai, pousa. ali, então, os poemas serão o todo, o ar, ou seja, a poesia -- que é uma arte -- vai reinar. vai espalhar-se. se os poemas serão o ar, então esta é a condição de existência. o tempo da poesia é espesso, intenso, diferente do tempo do relógio, do tempo histórico, que é cronológico, mensurável. quando se lê que os poemas serão o próprio ar, tem-se a ideia de que há uma inauguração, pois o último verso assim ensina: "como o primeiro dia conhecido", ou seja, é início de tudo. ou reinício, aí você escolhe.

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 em 1944 publicou o primeiro livro, numa edição de 300 exemplares.
(...) Ao longo de 60 anos, a sua obra, agraciada com numerosos prêmios, abrangeu a poesia, a ficção,o teatro, o ensaio, as traduções e a organização de antologias literárias.  
(...)
Quanto ao poeta, recomenda-se que, como João Cabral de Melo Neto ou qualquer outro "poeta clássico", sempre recupere a memória da morte, atinja por vezes a alucinação feroz e conheça, como a sua mão esquerda, a companhia da ausência, do conflito e do desastre (...)

feminae - dicionário contemporâneo - joão esteves & zilia castro ]

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