ali, então - sophia de mello breyner - comentário
ALI, ENTÃO
Ali, então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
[ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]
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texto metalinguístico, traz um caráter reconstrução, nos versos.
vejam, há a necessidade de uma pausa, um momento de intervalo, sem dor, sem destino prévio -- como se lê nos versos entre parêntesis. é dessa pausa que o poeta precisa, pois o momento é frágil ("ameaçado")
o eu lírico se prepara para expor seus versos e precisaria desta pausa, ante o mar, o vento e o silêncio, ao contrário dos ruídos modernos. a calma pousa, ela não cai. ali, então, os poemas serão o todo, o ar, ou seja, a poesia -- que é uma arte -- vai reinar. vai espalhar-se. se os poemas serão o ar, então esta é a condição de existência. respirar literatura. o tempo da poesia é espesso, intenso, diferente do tempo do tempo histórico, que é cronológico, mensurável. quando se lê que os poemas serão o próprio ar, tem-se a ideia de que há uma inauguração, pois o último verso assim ensina: "como o primeiro dia conhecido", ou seja, é início de tudo. ou reinício, aí você escolhe.
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