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língua - regina azevedo adoça o idioma

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          não é só isso     _ajudando na interpretação de texto_                                                LÍNGUA              [ Regina Azevedo ]     li um texto    com meu namorado    e agora é me come pra cima                       me come pra baixo    é que a vida inteira    tentamos fincar bandeiras    enquanto podíamos sambar    mas agora ele diz    me encoxa    e eu adoro                     claro        fico logo molhada     com essa ideia    de sobrepor camadas    de fazer da língua     a própria bala   .  .   ....

assim o amor - sophia de mello breyner busca ser racional com o sentimento

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                                                                           sophia de mello breyner andresen (1919-2004) uma resenha do poema de sophia de mello breyner: "assim o amor"       ASSIM O AMOR   Assim o amor   Espantado meu olhar com teus cabelos   Espantado meu olhar com teus cavalos   E grandes praias fluidas avenidas   Tardes que oscilam demoradas   E um confuso rumor de obscuras vidas   E o tempo sentado no limiar dos campos   Com seu fuso sua faca e seus novelos   Em vão busquei eterna luz precisa     [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]   . . . . . . . .  .  .  .   . eu lírico contempla o ser amado com assombro: os cabelos, a força quase selvagem (“cavalos”), paisagens abe...

traiu ou não traiu? atlântida é a voz de capitu no exílio

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                                                                                    [ imagem da capa: andré catani 1998 ]       atlântida - um monólogo texto feito em 1997.  transformou-se em uma peça teatral em 1998, com manuela soares atuando. era um monólogo. capitu falando, desde o exílio. trecho: " Essa aparição aqui é mera concessão que faço... quero que conheçam o espaço atlântico para onde fui jogada. E onde vou purgando os meus pecados... ou os pecados dos outros. (...)    Na verdade me apropriei desse espaço e vivo até que bem... Nasci para ser mártir.  Passei anos de ressaca. E olhe que a Europa não é o melhor lugar para quem sai do Rio de Janeiro do jeito que eu saí. Embora minha condição até que exigisse uma certa postura nobr...

banksy e o homem que arremessa flores - mas não é só isso

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        não é só isso     _ajudando na intepretação de imagens_                                                                     banksy, 2003 - mural - cisjordânia uma proposta de estudo para vestibulandos(as) e afins arte  -- até este momento -- do misterioso grafiteiro banky, britânico que, segundo fãs, nasceu em 1974. o grafite mostra um manifestante em gesto clássico de ataque — corpo tenso, braço armado pro arremesso — mas, no lugar de pedra ou um coquetel molotov, ele lança  flores . mas não é só isso. se você entendeu que o alvo é aqueles que guerreiam, estamos no caminho certo.  veja: cena seca, quase monocromática; a cor explode só no buquê.  por quê? outra provocação: na violência esperada, resposta poética. por quê? o que incomoda? [t enta responder as...

velho arvoredo - paulo cesar pinheiro - entre a resistência e o abandono

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                   VELHO ARVOREDO                Paulo Cesar Pinheiro   Eu te esqueci muito cedo   Pelo tempo que passou   Tal como um velho arvoredo   Que o vento não derrubou   Tronco mudado em rochedo   Pedra transformada em flor   E eu fui ficando sozinho no pó do caminho   Me desenganando, sofrendo e chorando   E mantendo em segredo   Essa minha ilusão   Que me escapou de entre os dedos   Pra não sei que outras mãos   E eu me tornei o arremedo   De tudo aquilo que eu não sou   Mas eu jamais retrocedo   O que passou passou   Já superei, mas só eu sei   O mesmo jamais eu serei   Feito a madeira o machado inclinando   Eu por fora estou cicatrizando   E por dentro sangrando, afastado do medo   Mas sozinho, tal como o velho arvoredo   Que não serve ao tempo nem ao lenhador   E ...

não é só isso - agora virou podcast

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  não é só isso agora virou podcast ! eu, o edson capellato e o henrique subi nos juntamos pra falar de literatura e outras coisas. o primeiro episódio é sobre william shakespeare importantíssimo : clicar e comentar, porque ajuda o algoritmo a fazer com que o vídeo atinja mais pessoas     veja aqui a versão youtbe da coisa : [ episódio inteiro ] [ chamada para o podcast ] [ episódio 2  na íntegra] [ chamada para episódio 2 ]

sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

1975 : lembro quase nada

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  entre 1973 e 74, passei a ir sozinho à escola . eu estava pelos 9 anos de idade e isso trazia certa noção de liberdade que eu não conseguia medir.  a questão nem envolvia chance de fazer o que quisesse, eu não tinha essa noção de poder. o lance era estar sozinho, no calor eterno da cidade de ribeirão preto, isso fascinava.  ir e vir por conta própria. a distância para escola era de um quilômetro, desde a rua altino arantes, até o grupo escolar guimarães junior, em ribeirão preto. como algumas vezes ia ziguezagueando, entre uma calçada e outra --  pra fugir de cães de rua --  o percurso percorrido ficava maior.  estar sem a presença austera da mãe era sim um tipo de libertação. eu não cabia no que eu era.  ir sozinho pra escola não era difícil: praticamente descer a rua barão do amazonas até a rua lafayette. pronto. eu ia e voltava sozinho, algumas vezes. era realmente livre? não sei. é tarde pra saber. pelos idos de 1975, ouvia raul seixas no rádio, ...

o africano e o poeta - narcisa amália e a justiça social

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       O AFRICANO E O POETA   _ Nebulosas_                                               Narcisa Amália   No canto tristonho   Do pobre cativo   Que elevo furtivo,   Da lua ao clarão;   Na lágrima ardente   Que escalda-me o rosto,   De imenso desgosto   Silente expressão;   Quem pensa? — o poeta   Que os carmes sentidos   Concerta aos gemidos   De seu coração.   — Deixei bem criança   Meu pátrio valado,   Meu ninho embalado   da Líbia no ardor:   Mas esta saudade   Que em meu túmido ardor   Lacera-me o seio   Sulcado de dor,   Quem sente? — o poeta   Que o elísio descerra;   Que vive na terra   De místico amor!     (...)   Quem vê? — o poeta   Que expira em harpejos   Aos lúgubres beijos   Da fom...

sociedade do cansaço - a pancada na ditadura da perfomance

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  o início do livro de byung han: Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. (...)  O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo a Guerra Fria seguia esse esquema imunológico. (...)  Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, (...) Falta à di...