Postagens

destaques

sociedade do cansaço - a pancada na ditadura da perfomance

Imagem
  o início do livro de byung han: Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. (...)  O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo a Guerra Fria seguia esse esquema imunológico. (...)  Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, (...) Falta à di...

livros restantes - filme entrega mulheres feitas de memória, coragem e desejo

Imagem
  ana catarina e joílton " livros restantes " ( denise fraga, marcia paraíso, 2025 ) -- filme sobre ana catarina, mulher que pretende sair do brasil, rumo a portugal, mas que decide, antes, devolver os cinco livros que sobraram na estante, justamente para aquelas pessoas que deram a ela os livros e fizeram dedicatórias!...  o cenário é florianópolis, barra da lagoa, beira de praia. ana catarina foi professora e, perto da terceira idade, engendra a ideia de sair do lugar, do país... existe um motivo importante, pesado, movendo isso, você descobre no fim. é impactante. assim como são impactantes as demais figuras femininas que gravitam em torno ana catarina, desde a mãe, a filha e até outras figuras que ela reencontra, por conta do plano de devolver livros que ganhou. as figuras masculinas são pequenas, com dificuldades por vezes insuperáveis, outras que são resolvidas depois de tempo, resignação e alguma culpa... os homens, nesse filme, são quase um estorvo, salvo joilton (mar...

mordaça - paulo cesar pinheiro e a importância da emoção

Imagem
                                                         o importante é que a nossa emoção sobreviva                           eduardo gudin, marcia e p cesar pinheiro 1975        MORDAÇA  Tudo o que mais nos uniu separou  Tudo o que tudo exigiu renegou  Da mesma forma que quis recusou  O que torna essa luta impossível e passiva  O mesmo alento que nos conduziu debandou  Tudo o que tudo assumiu desandou  Tudo que se construiu desabou  O que faz invencível a ação negativa  É provável que o tempo faça a ilusão recuar  Pois tudo é instável e irregular  E de repente o furor volta  O interior todo se revolta  E faz nossa força se agigantar  Mas só se a vida fluir sem se opor  Mas só se o temp...

a paixão segundo g.h. - leitura afetiva de um livro áspero

Imagem
  romance -- vou chamá-lo assim -- de clarice lispector , 1964 narrado em primeira pessoa, voz feminina. já aviso: "a paixão segundo gh" não é, livro pra consumo, é pra companhia. então, segura na mão dela e segue. logo no espaço da dedicatória, lemos:              _A possíveis leitores_ Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. (...) Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. (...)           [ A paixão segundo GH, C Lispector ]  . . . . . . . .  .  .  .   . depois, vem o início que é de uma estrutura incomum: são seis travessões, antes da prmeira palavra, assim: —  —   —  —  —  —    estou procurando, estou procurando. Estou tentand...

uma mulher morta a cada 33 horas no estado de são paulo

Imagem
  notícia de fevereiro, 2026 : " Entre janeiro e dezembro, foram 266 ocorrências — em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas.  Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de casos de feminicídio desde o início da série histórica, em 2018. " cbn - feminicídio dentro do shop abc, s paulo  - l er matéria tod a  . . . . . . . . .  .  .  .   . em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas, quase uma por dia!! olhem, no universo que me cabe, que é o da educação, não há como fugir à pergunta: escolas estão trabalhando essa questão do feminicídio? pois é... e não me refiro a uma proposta de produção de texto perdida no meio do ano letivo ou uma conversa em sala de aula sobre o tema, a partir da leitura de um texto literário. não. é preciso que todos os professores e professoras participem do barulho. uma semana de atividade, em todas as aulas, sobre combate ao feminicídio. arte, ciência, filosofia, educação física, humanidades, ...

confete sustentável ? não é só isso

Imagem
              não é só isso   _ interpretação de texto para inciantes_           portal midia ninja - Em meio a toneladas de plástico espalhadas pelas ruas após o Carnaval, uma alternativa simples e criativa surge como alternativa aos materiais usuais: o confete feito de folhas secas. A ideia é tão óbvia quanto potente. Em vez de utilizar papéis metalizados ou plásticos que demoram anos para se decompor e frequentemente acabam em bueiros, rios e consequentemente no mar, o confete sustentável reaproveita folhas já caídas das árvores. Elas são higienizadas, secas e perfuradas, transformando-se nos confetes que mantêm a leveza da folia e o melhor, sem deixar rastros de poluição! Diferente do confete tradicional, que pode conter tintas, metais pesados ou microplásticos, o confete de folhas é totalmente biodegradável. Se ficar no chão, volta para a terra. Não entope sistemas de drenagem, não ameaça animais e não sobrecarrega a ...

dia - adélia prado - quando tudo palpita

Imagem
  adélia luiza prado de freitas         DIA    As galinhas com susto abrem o bico    e param daquele jeito imóvel     — ia dizer imoral —    as barbelas e as cristas envermelhadas,    só as artérias palpitando no pescoço.    Uma mulher espantada com sexo:    mas gostando muito.                            Adélia Prado    . . . . . .  .  .   .   . aqui é o corpo surpreendido pelo próprio desejo.  é a mulher transgressora: veja esta escolha de imagens para tratar do erotismo: chão de quintal, galinhas . depois disso, o espanto do desejo físico. vai ficando melhor...  i mpactante a metáfora envolvendo pescoço de galinha e sexo. é o prazer. desejo sem pose. erotismo aqui não é pornografia. adélia sabe supreender.  é literatura.

literatura não autorizada - crônicas de um cotidiano ofensivo

Imagem
  " literatura não autorizada " (c h carneiro) reúne crônicas que parecem curtas à primeira vista, mas... não são: cada texto carrega gesto de observação fina do cotidiano, ironia discreta e uma recusa elegante ao óbvio. sim! eu por mim mesmo! vai vendo. literatura que confia no leitor — não explica tudo, não fecha sentidos. "literatura não autorizada" é livro sem conforto mastigado. e o que tem nele:  histórias sobre o navegante bartolomeu dias que roubava mulheres, também outra com virgolino ferreira; também fatos sobre a suposta estátua de álvares de azevedo -- feita pelo amadeo zani (1907) -- no largo s francisco, são paulo; também crônica envolvendo luiza almeida e seu avô-poeta bráulio de abreu, assim como as presenças não menos ilustres de yghor boy, tatiana penido, a rosalina valverde, rodolfo amoedo, o indígena içá mirim, durvalina, a clarice lispector, giovana schluter, emília (do lobato), o próprio lobato, a debora dezena, luiz puntel e mais um tanto de f...

não é só isso - a negritude e o racismo estrutural

Imagem
         não é só isso        _ intepretando texto _                                       QUEM TEM UM AMIGO TEM TUDO  Quem tem um amigo tem tudo  Se o poço devorar, ele busca no fundo  É tão dez que junto todo stress é miúdo  É um ponto pra escorar quando foi absurdo  Quem tem um amigo tem tudo  Se a bala come, mano, ele se põe de escudo  Pronto pro que vier memo a qualquer segundo  É um ombro pra chorar depois do fim do mundo  Ser mano igual Gil e Caetano  Nesse mundo louco é pra poucos, tanto sufoco insano encontrei  Voltar pra esse plano e vamos estar voltando  É tipo rococó, barroco, em que Aleijadinho era rei  É presente dos deuses, rimos quantas vezes?  Como em catequeses, logo perguntei  Pra Oxalá e pra Nossa Senhora  Em que altura você mora agora, um dia lhe vi...

o dia em que o morro descer e não for carnaval - paulo c pinheiro - resenha

Imagem
    O DIA EM QUE  MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL               [ Paulo Cesar Pinheiro & W das Neves ] O dia em que o morro descer e não for carnaval ninguém vai ficar pra assistir o desfile final na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil  (é a guerra civil) No dia em que o morro descer e não for carnaval não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral e cada uma ala da escola será uma quadrilha a evolução já vai ser de guerrilha e a alegoria um tremendo arsenal o tema do enredo vai ser a cidade partida no dia em que o couro comer na avenida se o morro descer e não for carnaval O povo virá de cortiço, alagado e favela mostrando a miséria sobre a passarela sem a fantasia que sai no jornal vai ser uma única escola, uma só bateria quem vai ser jurado? Ninguém gostaria que desfile assim não vai ter nada igual Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga nem autoridade que compre e...

rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

Imagem
                                              gilka machado 1893 - 1980       Rio   Da pétrea catedral de esplêndida cascata,  como de monjas longa e estranha procissão,  de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,  entoando religioso e frio cantochão.  E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,  ronca o rio raivoso em plena solidão,  e toda a frágil flor ripícola arrebata,  sepultando o que nele achara berço, então.  Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,  em seu constante curso ele os manifesta  todas as vibrações vitais do humano ser.  E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,  um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber  o ventre virginal e verde da floresta.                Gilka Machado - C ristais partido s, 1915    ...