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rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

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                                              gilka machado 1893 - 1980       Rio   Da pétrea catedral de esplêndida cascata,  como de monjas longa e estranha procissão,  de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,  entoando religioso e frio cantochão.  E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,  ronca o rio raivoso em plena solidão,  e toda a frágil flor ripícola arrebata,  sepultando o que nele achara berço, então.  Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,  em seu constante curso ele os manifesta  todas as vibrações vitais do humano ser.  E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,  um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber  o ventre virginal e verde da floresta.                Gilka Machado - C ristais partido s, 1915    ...

electra - sophia m breyner - o grito é a insônia das coisas

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  [sophia de m bryener andresen 1919-2004  ]     ELECTRA  O rumor do estio atormenta a solidão de Electra  O sol espetou a sua lança nas planícies sem água  Ela solta os seus cabelos como um pranto  E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos  Onde em colunas verticais o calor treme  O seu grito atravessa o canto das cigarras  E perturba no céu o silêncio de bronze  Das águias que devagar cruzam seu voo  O seu grito persegue a matilha das fúrias  Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros  Ou nos cantos esquecidos do palácio  Porque o grito de Electra é a insônia das coisas    A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes  E a invocação exposta    Na claridade frontal do exterior  No duro sol dos pátios  Para que a justiça dos deuses seja convocada   [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]    . . . . . . .  ...

árvores necessárias - não é só isso

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        não é só isso     _ ajudar na interpretação de texto _ alexandre beck o que a tirinha lhe comunica? o garotinho muda de postura na penúltima cena, o que te parece?  tenta responder, por escrito, depois volte aqui, veja se o que escrevi combina com o que pensou.  menino olha o toco de árvore e sente vergonha. algo ali deu errado — não só no corte da árvore, mas no jeito como a gente trata o mundo.  importante:  quem é o "vocês", no último quadrinho? -- pensa, escreve, mais abaixo, sugiro a resposta a árvore, mesmo ferida, responde: há pequeno galho brotando, ainda insistindo. não se trata apenas de uma tirinha motivacional, tipo "preserve a natureza", "viva a esperteza das crianças" etc. não é só isso.   na lata_ a tirinha é incômoda. o toco é uma derrota, sim — nossa. mas o broto é aviso: a natureza resiste apesar da gente. o menino não comemora; ele se reposiciona. é um alerta. outra pergunta: alerta para quê? o que pode a...

nua - lia d'assis - a nudez que abraça

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        NUA  Desejo ser um eu que desconheço  que saísse desse ventre de desespero    e nua caminhasse por incertos trajetos  sem culpas nem desculpas nem despedidas  e nua entoasse a canção da liberdae  sempre tecida na opressão do cárcere  e nua abraçasse todos os receios  falhas rusgas erros próprios e alheios  e nua dançasse onde a via termina          [ Lia d'Assis , F also infinit o , ed Patuá ]  . . . . . . .  .  .  .   . repara na lista : culpa, desespero, opressão, cárcere, falhas, um turbilhão de tensões  e dores que contrastam com a necessidade de nudez . não aquela da fuga das roupagens -- máscaras --  que a realidade nos impõe, mas a nudez que enfrenta com lirismo essa caçamba de bagulhos ruins. um lirismo sem promessa. é muito lindo. ia escrever " linda " , tive receio. agora já era. olhem, a expressão "canção de liberdade" não é nova, a...

pesadelo - paulo cesar pinheiro - resenha

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           P E S A D E L O  Quando o muro separa uma ponte une  Se a vingança encara o remorso pune  Você vem me agarra, alguém vem me solta  Você vai na marra, ela um dia volta  E se a força é tua ela um dia é nossa  Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  Você corta um verso, eu escrevo outro  Você me prende vivo, eu escapo morto  De repente olha eu de novo  Perturbando a paz, exigindo troco  Vamos por aí eu e meu cachorro  Olha um verso, olha o outro  Olha o velho, olha o moço chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  O muro caiu, olha a ponte  Da liberdade guardiã  O braço do Cristo, horizonte  Abraça o dia de amanhã  Olha aí           [ Maurício Tapajós & P C Pinheiro, 1976 ]    álbum: o importante é que a nossa emoção sobreviva - parte 2  -  1976 ...

família e acolhimento - não é só isso

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              não é só isso            _ ajudando quem quer estudar interpretação de texto _ trecho de matéria, rede BBC News: A crença de que a família de sangue representa, obrigatoriamente, um espaço de acolhimento, proteção e confiança não se confirma em muitas trajetórias pessoais. Segundo a psicanalista  Vera Iaconelli , esse ideal costuma gerar frustração emocional, conflitos recorrentes e sofrimento psíquico, sobretudo em períodos de forte carga simbólica, como as festas de fim de ano. (...)  discursos culturais, publicidade e redes sociais alimentam uma imagem idealizada da família. No entanto, quando a convivência real não corresponde a essa expectativa, surgem sentimentos de inadequação, culpa e desgaste emocional. “ A família continua sendo a mesma, apenas reunida em um momento específico de celebração. Portanto, não se trata de um espaço onde tudo se resolve ” , afirma. (...) a psicanalista explica q...

ali, então - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia  1919 - 2004 ]        ALI, ENTÃO  Ali, então em pleno mundo antigo  À sombra do cipreste e da videira  Olhando o longo tremular do mar  Num silêncio de luas e de trigo  (Como se a morte a dor o tempo e a sorte   Não nos tivessem nunca acontecido)  Em nossas mãos a pausa há-de poisar  Como o luar que poisa nas videiras  E em frente ao longo tremular do mar  Num perfume de vinho e de roseiras  A sombra da videira há-de poisar  Em nossas mãos e havemos de habitar  O silêncio das luas e do trigo  No instante ameaçado e prometido  E os poemas serão o próprio ar  — Canto do ser inteiro e reunido —  Tudo será tão próximo do mar  Como o primeiro dia conhecido      [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]    . . . . .  .  .  . texto metalinguístico, traz um caráter reconstrução, nos versos. vejam, há a necessidade de uma p...

um poeta clássico - sophia de mello breyner andresen - comentário

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  [ sophia 1919 - 2004 ]     UM POETA CLÁSSICO   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo:   Prumo esteio coluna   Combate esculpido nas métopas do templo   Una e múltipla   Cada encontro a recomeça:   Agudo gume quando a música ressoa   Venenosa rosa do junho mais antigo   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo   Nem integrada nem assumida   Apenas companheira   Segunda mão poisada sobre a mesa   Mão esquerda   Companheira serena   Das coisas serenas:   Parede livro fruto   E fogosa condutora dos desastres   Que nos esperam em seus pátios lisos         [ S ophia de Mello Breyner - G eogr a fi a 1967 ]    . . . . .  .  .  .            n ota _        métopa -   espaço existente entre dois tríglifos de um friso dórico (arquitetura)   ...

crianças e adolescentes em tempos de crise climática

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  não é só isso   [ leituras de cotidiano ]                                               Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo, como as enchentes  no Rio Grande do Sul em 2024,  que afetaram milhões de pessoas e interromperam o acesso à educação, saúde e moradia,  o Instituto Alana lança, em parceria com o Conanda (Conselho Nacional dos  Direitos da Criança e do Adolescente) e Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o guia “ Cuidar e proteger: infâncias e adolescências em tempos de crise climática ”, que busca fortalecer e ampliar o alcance do documento " Recomendação do Conada para proteção integral de crianças e adolescentes em situação de riscos e desastres climático s" , publicado em 2024.  O material, apresentado durante a Semana nacional de enfrentamento à violência sexual contra...

desenredo - paulo cesar pinheiro e dori caymmi

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          não é só isso          _ ajudando quem tem dificuldade com leitura _                    D E S E N R E D O            Caymmi & P Cesar Pinheiro   Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo   A morte tece seu fio de vida feita ao avesso   O olhar que prende anda solto   O olhar que solta anda preso   Mas quando eu chego eu me enredo   Nas tramas do teu desejo   O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo   A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo   O olhar que assusta anda morto   O olhar que avisa anda aceso   Mas quando eu chego eu me perco   Nas tranças do teu segredo   Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou   Vou-me embora pra bem longe   A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço   A morte que a vida anda armando, a vida que a morte a...

aprendendo fora da sala

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      não é só isso  [ leituras de cotidiano ]      alexandre beck postagem para ajudar quem tem dificuldade com interpretação de texto veja se você compreendeu, a partir do que escrevo aqui:  a tirinha não está dizendo apenas que “às vezes não ter aula pode ensinar algo”. a conversa entre adulto e criança  sugere que a experiência fora da escola , também produz aprendizado — tão  marcante quanto o conteúdo formal. olhe: de repente é feriado e a criança questiona sobre não ir à escola. então, vale a explicação e tome aprendizado. de repente, não ter aula, é a consequência de um incidente como uma greve: mais explicações sem rodeios. na lata :  aprender não se limita à sala de aula. o que se aprende ali perde força se não encontra a prática da vida. agora, a prática, sozinha, sem estudo e sem reflexão, também se esvazia. a tirinha não é apenas sobre menino que está descontente por não ir á escola. não é só isso.  se quem leu per...

de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria que algo ainda lhe pertencesse. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio e o peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a me...

caminho - sophia de mello breyner - comentário

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             CAMINHO   Na marcha pelo deserto eu sabia   Que alguns morreriam   Mas pensava sob o céu redondo   — Onde   O limite do meu amor da minha força?   E eis que morro antes do próximo oásis   Com a garganta seca e o peso   Ilimitado do sol sobre os meus ombros   Eis que morro cega de brancura   Cansada demais para avistar miragens   Eu sabia   Que alguém   Antes do próximo oásis morreria      [ S ophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]    . . . . . .  .  .  .   . aqui, o eu lírico está enfraquecido pela caminhada, pelo viver. curzar um deserto é senso comum de sofrimentos. sempre há os que não conseguem e sempre há os que morrem. uma pergunta ecoa, no texto: onde o limite do meu amor...? -- depois, segue-se o sofrimento e a morte. o eu poético está seguindo pelo deserto com outras pessoas. isso pesa. a questão é: por qu...