a paixão segundo g.h. - leitura afetiva de um livro áspero
romance -- vou chamá-lo assim -- de clarice lispector, 1964
narrado em primeira pessoa, voz feminina.
já aviso: "a paixão segundo gh" não é, livro pra consumo, é pra companhia. então, segura na mão dela e segue.
logo no espaço da dedicatória, lemos:
_A possíveis leitores_
Este livro é como um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de
alma já formada.
(...) Aquelas pessoas que, só
elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a
pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. (...)
[ A paixão segundo GH, C Lispector ]
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depois, vem o início que é de uma estrutura incomum: são seis travessões, antes da prmeira palavra, assim:
— — — — — — estou procurando, estou procurando. Estou tentando
entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas
não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi,
tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me
aconteceu. (...) A isso quereria chamar
desorganização (...) Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é
mais. (...) como se eu tivesse perdido uma
terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que
fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.
. . . . . . . . . .
olhe: há um vazio exposto antes do discurso; este vazio está no uso dos travessões. sabendo que travessão precede fala, então pode-se inferir isto: parece uma dificuldade, pausa tensa, para deixar fluir o discurso. é adificuldade em comçear o texto. o início trata de um desmantelamento, uma perda de segurança. assim: a terceira perna não ajudava a andar, mas dava estabilidade. isso se perdeu. ela não fica manca, mas exposta, isso é tenso para a narradora
a perda da terceira perna é o fim de um modelo antigo de "eu". ela diz: "não confio no que me aconteceu" -- não se trata de um fato possivelmente falso, mas sim real demais.
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o encontro com a barata é o terremoto. durante esse acontecimento, a “terceira perna” se quebra. o livro começa depois, entre os escombros, quando a narradora tenta compreender quando e como perdeu sua estabilidade. o processo narrativo nasce dessa perda já sentida, mas ainda não inteiramente entendida
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gh atravessou algo que a tirou do centro. está disposta a partilhar seu novo estado. havia o medo, daí o pedido de ajuda de quem lê. nesta última parte do livro, a coisa se inverte porque o amor é contato: convida a mão do leitor(a) a fazer a mesma travessia. é partilha, amor universal. no amor, aceita-se a integração. g.h.
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trecho final do livro, segura na minha mão e lê :
E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui.
Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. (...) a
atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última
extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos
sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.
O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu
tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou
entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais
compreenderei o que eu disser Pois como poderia eu dizer sem
que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão
timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não
entendo o que digo. E então adoro. [ fim ]
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o termo "paixão", no título, remete à dor, ao sofrimento. aqui, remete à desintegração do eu.
romance de desapropriação. g.h. se perde. perde classe, linguagem, gosto, hierarquia. a barata é o limite bruto do humano. diante dela, a narradora descobre que seu “eu” era uma construção confortável, quase blindada. "quase" porque surge o desenho de janair e, mais perto dos tempos ancestrais, o ser antiquíssimo -- a barata -- vinda de dentro do armário. o choque se dá com a constatação de que a vida não se organiza para o humano nem precisa do seu sentido. daí, o livro incomoda.
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saber mais sobre o que penso deste livro _ assista-me !

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