de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário

 

[ sophia breyner 1919 - 2004 ]


     De um amor morto

  De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora

      [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]

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o amor morto incomoda. soa como uma relação terminada, morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria de que algo ficasse consigo. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio. peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a memória resta de um amor morto.

é tão incômoda essa história do amor já morto que o desfecho expõe uma pancada para diminuí-lo: "a eternidade ignora". contudo, sabe-se, o amor ainda existe. morto, mas existe. é muito bonito isso. foda.  . . . . . . .  .  .  .   .

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 em 1944 publicou o primeiro livro, numa edição de 300 exemplares. (...) ao longo de 60 anos, a sua obra, agraciada com numerosos prêmios, abrangeu a poesia, a ficção,o teatro, o ensaio, as traduções e a organização de antologias literárias.  (...) Quanto ao poeta, recomenda-se que, como João Cabral de Melo Neto ou qualquer outro "poeta clássico", sempre recupere a memória da morte, atinja por vezes a alucinação feroz e conheça, como a sua mão esquerda, a companhia da ausência, do conflito e do desastre (...)

feminae - dicionário contemporâneo - joão esteves & zilia castro ]

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