de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário
De um amor morto
De um amor morto fica Um pesado tempo quotidiano Onde os gestos se esbarram Ao longo do ano De um amor morto não fica Nenhuma memória O passado se rende O presente o devora E os navios do tempo Agudos e lentos O levam embora Pois um amor morto não deixa Em nós seu retrato De infinita demora É apenas um facto Que a eternidade ignora
[ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]
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o amor morto incomoda. soa como uma relação terminada, morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria de que algo ficasse consigo. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio. peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a memória resta de um amor morto.
é tão incômoda essa história do amor já morto que o desfecho expõe uma pancada para diminuí-lo: "a eternidade ignora". contudo, sabe-se, o amor ainda existe. morto, mas existe. é muito bonito isso. foda. . . . . . . . . . . .
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em 1944 publicou o primeiro livro, numa edição de 300 exemplares. (...) ao longo de 60 anos, a sua obra, agraciada com numerosos prêmios, abrangeu a poesia, a ficção,o teatro, o ensaio, as traduções e a organização de antologias literárias. (...) Quanto ao poeta, recomenda-se que, como João Cabral de Melo Neto ou qualquer outro "poeta clássico", sempre recupere a memória da morte, atinja por vezes a alucinação feroz e conheça, como a sua mão esquerda, a companhia da ausência, do conflito e do desastre (...)
[ feminae - dicionário contemporâneo - joão esteves & zilia castro ]
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