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Mostrando postagens com o rótulo poesia

nua - lia d'assis - comentário

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        NUA  Desejo ser um eu que desconheço  que saísse desse ventre de desespero    e nua caminhasse por incertos trajetos  sem culpas nem desculpas nem despedidas  e nua entoasse a canção da liberdae  sempre tecida na opressão do cárcere  e nua abraçasse todos os receios  falhas rusgas erros próprios e alheios  e nua dançasse onde a via termina          [ Lia d'Assis , F also infinit o , ed Patuá ]  . . . . . . .  .  .  .   . repara na lista : culpa, desespero, opressão, cárcere, falhas, um turbilhão de tensões  e dores que contrastam com a necessidade de nudez . não aquela da fuga das roupagens -- máscaras --  que a realidade nos impõe, mas a nudez que enfrenta com lirismo essa caçamba de bagulhos ruins. um lirismo sem promessa. é muito lindo. ia escrever " linda " , tive receio. agora já era. olhem, a expressão "canção de liberdade" não é nova, a...

pesadelo - paulo cesar pinheiro - resenha

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           P E S A D E L O  Quando o muro separa uma ponte une  Se a vingança encara o remorso pune  Você vem me agarra, alguém vem me solta  Você vai na marra, ela um dia volta  E se a força é tua ela um dia é nossa  Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  Você corta um verso, eu escrevo outro  Você me prende vivo, eu escapo morto  De repente olha eu de novo  Perturbando a paz, exigindo troco  Vamos por aí eu e meu cachorro  Olha um verso, olha o outro  Olha o velho, olha o moço chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  O muro caiu, olha a ponte  Da liberdade guardiã  O braço do Cristo, horizonte  Abraça o dia de amanhã  Olha aí           [ Maurício Tapajós & P C Pinheiro, 1976 ]    álbum: o importante é que a nossa emoção sobreviva - parte 2  -  1976 ...

ali, então - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia  1919 - 2004 ]        ALI, ENTÃO  Ali, então em pleno mundo antigo  À sombra do cipreste e da videira  Olhando o longo tremular do mar  Num silêncio de luas e de trigo  (Como se a morte a dor o tempo e a sorte   Não nos tivessem nunca acontecido)  Em nossas mãos a pausa há-de poisar  Como o luar que poisa nas videiras  E em frente ao longo tremular do mar  Num perfume de vinho e de roseiras  A sombra da videira há-de poisar  Em nossas mãos e havemos de habitar  O silêncio das luas e do trigo  No instante ameaçado e prometido  E os poemas serão o próprio ar  — Canto do ser inteiro e reunido —  Tudo será tão próximo do mar  Como o primeiro dia conhecido      [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]    . . . . .  .  .  . texto metalinguístico, traz um caráter reconstrução, nos versos. vejam, há a necessidade de uma p...

desenredo - paulo cesar pinheiro e dori caymmi

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          não é só isso          _ ajudando quem tem dificuldade com leitura _                    D E S E N R E D O            Caymmi & P Cesar Pinheiro   Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo   A morte tece seu fio de vida feita ao avesso   O olhar que prende anda solto   O olhar que solta anda preso   Mas quando eu chego eu me enredo   Nas tramas do teu desejo   O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo   A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo   O olhar que assusta anda morto   O olhar que avisa anda aceso   Mas quando eu chego eu me perco   Nas tranças do teu segredo   Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou   Vou-me embora pra bem longe   A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço   A morte que a vida anda armando, a vida que a morte a...

de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria que algo ainda lhe pertencesse. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio e o peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a me...

caminho - sophia de mello breyner - comentário

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             CAMINHO   Na marcha pelo deserto eu sabia   Que alguns morreriam   Mas pensava sob o céu redondo   — Onde   O limite do meu amor da minha força?   E eis que morro antes do próximo oásis   Com a garganta seca e o peso   Ilimitado do sol sobre os meus ombros   Eis que morro cega de brancura   Cansada demais para avistar miragens   Eu sabia   Que alguém   Antes do próximo oásis morreria      [ S ophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]    . . . . . .  .  .  .   . aqui, o eu lírico está enfraquecido pela caminhada, pelo viver. curzar um deserto é senso comum de sofrimentos. sempre há os que não conseguem e sempre há os que morrem. uma pergunta ecoa, no texto: onde o limite do meu amor...? -- depois, segue-se o sofrimento e a morte. o eu poético está seguindo pelo deserto com outras pessoas. isso pesa. a questão é: por qu...

adeus, meus sonhos - postei, saí correndo

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         não é só isso      _ajudando a interpretar texto_                                  ADEUS, MEUS SONHOS   _  Álvares de Azevedo (1831-52)    Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!    Não levo da existência uma saudade!    E tanta vida que meu peito enchia    Morreu na minha triste mocidade!    Misérrimo! votei meus pobres dias    À sina doida de um amor sem fruto...    E minh’alma na treva agora dorme    Como um olhar que a morte envolve em luto.      Que me resta, meu Deus?!... morra comigo    A estrela de meus cândidos amores,    Já que não levo no meu peito morto    Um punhado sequer de murchas flores!           Álvares de Azevedo, Lira dos vinte anos , séc 19       nota _  ...

isto não é um sonho

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                                                                         [ isto não é um sonho ]     sonhando acordado    fico tentando saber quem sou    um pensamento forma outro    esse outro forma outro    todos conseguem ir ao passado     fuçam, xeretam, resmungam    nenhum volta    então    mando um outro pensamento    buscar os que se perderam    daí eu durmo

iniciação - josé paulo paes

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        I N I C I A Ç Ã O Com os olhos tapados pelas minhas mãos, os dois seios de A. tremiam no antegozo e no horror da morte consentida.  De ventosas aferradas à popa transatlântica de B., eu conheci a fúria das borrascas e a combustão dos sóis.   Pelas coxas de C. tive ingresso à imêmore caverna onde o meu desejo ficou preso para sempre nas sombras da parede e no latejar do sangue, realidade última que cega e que ensurdece.             [ prosas seguidas de odes mínimas, j paulo paes ]    . . . . .  .  .  .   .   .    .                nota_               i mêmor e: sem memória texto com pretensão sensual e temperos poéticos. o orgasmo seria essa "morte consentida" ... o que chamavam na frança de "pequena morte", ou seja, o orgasmo era visto assim por franceses e francesas do mundo acadêmico. ...

a raposa de dentro

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                                            [ capa do disco " caça à raposa ", 1975 RCA ]  versos de "caça à raposa", joão bosco e aldir blanc:   O olhar dos cães, a mão nas rédeas   E o verde da floresta   Dentes brancos, cães   A trompa ao longe, o riso   Os cães, a mão na testa   O olhar procura, antecipa   A dor no coração vermelho     (...)   Uma cabeleira sobre o feno   Afoga o coração vermelho     (...)   . . . . .  .  .   .   .    . não é preciso muito cão para seguir trilha do desejo cão das lágrimas de saramago brilha cão nunca foi marca de amizade  os lobos sim rômulo remo e os lobos guará o coração vermelho chapéu vermelho na floresta fogo fog

tudo que move é sagrado

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  beto guedes "tudo que move é sagrado" é o primeiro verso da canção "amor de índio", parceria com ronaldo bastos,  olha:         tudo que move é sagrado        e remove as montanhas       com todo cuidado, meu amor        enquanto a chama arder       todo dia te ver passar         tudo viver a teu lado       com o arco da promessa         do azul pintado pra durar           (...)       s im, todo amor é sagrado        e o fruto do trabalho       é mais que sagrado           meu amor       a massa que faz o pão       vale a luz do seu suor         lembra que o sono é sagrado       e alimenta de horizontes      o tempo acordado de viver     ...

a saudade é o revés de um parto

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                                                                          [ zizi possi & chico buarque ] chico buarque ele é o autor deste verso que está na canção "pedaço de mim" a canção é de 1978, para o show "ópera do malandro" veja:   Oh, pedaço de mim  Oh, metade afastada de mim  Leva o teu olhar  Que a saudade é o pior tormento  É pior do que o esquecimento  É pior do que se entrevar  Oh, pedaço de mim  Oh, metade exilada de mim  Leva os teus sinais  Que a saudade dói como um barco  Que aos poucos descreve um arco  E evita atracar no cais  Oh, pedaço de mim  Oh, metade arrancada de mim  Leva o vulto teu  Que a saudade é o revés de um parto  A saudade é arrumar o quarto  do filho que já morreu   ...

bunda - carlos drummond de andrade

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  [ vênus calipígia, séc II a.c ]            A  BUNDA    A bunda, que engraçada.    Está sempre sorrindo, nunca é trágica.    Não lhe importa o que vai    pela frente do corpo. A bunda basta-se.    Existe algo mais? Talvez os seios.   Ora — murmura a bunda — esses garotos   ainda lhes falta muito que estudar.   A bunda são duas luas gêmeas   em rotundo meneio. Anda por si   na cadência mimosa, no milagre   de ser duas em uma, plenamente.   A bunda se diverte   por conta própria. E ama.   Na cama agita-se.   Montanhas  avolumam-se, descem.  Ondas batendo   numa praia infinita.   Lá vai sorrindo a bunda.    Vai feliz   na carícia de ser e balançar.   Esferas harmoniosas sobre o caos.   A bunda é a bunda,   redunda.       [ c. drummond de andrade, " amor natural ", 1992 ]   . ...

aparição - sophia de mello bryener andresen - comentário

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                                             Aparição   Devagar devagar um homem morre   Escura no jardim a noite se abre   A noite com miríades de estrelas   Cintilantes límpidas sem mácula   Veloz veloz o sangue foge   Já não ouve cantar o moribundo   Sua interior exaltação antiga   Uma ferida no seu flanco o mata   Somente em sua frente vê paredes   Paredes onde o branco se retrata   Seus olhos devagar ficam de vidro   Uma ferida no seu flanco o mata     Já não tem esplendor nem tem beleza   Já não é semelhante ao sol e à lua   Seu corpo já não lembra uma coluna   É feito de suor o seu vestido   A sua face é dor e morte crua   E devagar devagar o rosto surge   O rosto onde outro rosto se retrata   O rosto desde sempre pressentido   Por aquele que ao viver o ...

trevas - sophia de mello bryener - comentário

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                                                [ francisco gijón, cristo em agonia, séc 17 ]             7.  Trevas         O que foi antigamente manhã limpa        Sereno amor das coisas e da vida        É hoje busca desesperada busca        De um corpo cuja face me é oculta.                 [ O cristo cigano,  1961 , Sophia de M B Andresen ]      . . . . . .  .  .  .   .   .    . este é o sétimo poema de "o cristo cigano".   aqui, pode ser a voz do escultor -- que aparece no poema 1 -- buscando uma imagem de um cristo em agonia para construir sua estátua.  agora, se liga nessa história :   sophia breyner encontrou-se com joão c...