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Mostrando postagens com o rótulo poesia

sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

o africano e o poeta - narcisa amália e a justiça social

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       O AFRICANO E O POETA   _ Nebulosas_                                               Narcisa Amália   No canto tristonho   Do pobre cativo   Que elevo furtivo,   Da lua ao clarão;   Na lágrima ardente   Que escalda-me o rosto,   De imenso desgosto   Silente expressão;   Quem pensa? — o poeta   Que os carmes sentidos   Concerta aos gemidos   De seu coração.   — Deixei bem criança   Meu pátrio valado,   Meu ninho embalado   da Líbia no ardor:   Mas esta saudade   Que em meu túmido ardor   Lacera-me o seio   Sulcado de dor,   Quem sente? — o poeta   Que o elísio descerra;   Que vive na terra   De místico amor!     (...)   Quem vê? — o poeta   Que expira em harpejos   Aos lúgubres beijos   Da fom...

mordaça - paulo cesar pinheiro e a importância da emoção

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                                                         o importante é que a nossa emoção sobreviva                           eduardo gudin, marcia e p cesar pinheiro 1975        MORDAÇA  Tudo o que mais nos uniu separou  Tudo o que tudo exigiu renegou  Da mesma forma que quis recusou  O que torna essa luta impossível e passiva  O mesmo alento que nos conduziu debandou  Tudo o que tudo assumiu desandou  Tudo que se construiu desabou  O que faz invencível a ação negativa  É provável que o tempo faça a ilusão recuar  Pois tudo é instável e irregular  E de repente o furor volta  O interior todo se revolta  E faz nossa força se agigantar  Mas só se a vida fluir sem se opor  Mas só se o temp...

dia - adélia prado - quando tudo palpita

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  adélia luiza prado de freitas         DIA    As galinhas com susto abrem o bico    e param daquele jeito imóvel     — ia dizer imoral —    as barbelas e as cristas envermelhadas,    só as artérias palpitando no pescoço.    Uma mulher espantada com sexo:    mas gostando muito.                            Adélia Prado    . . . . . .  .  .   .   . aqui é o corpo surpreendido pelo próprio desejo.  é a mulher transgressora: veja esta escolha de imagens para tratar do erotismo: chão de quintal, galinhas . depois disso, o espanto do desejo físico. vai ficando melhor...  i mpactante a metáfora envolvendo pescoço de galinha e sexo. é o prazer. desejo sem pose. erotismo aqui não é pornografia, é literatura.  adélia sabe supreender.

o dia em que o morro descer e não for carnaval - paulo c pinheiro - resenha

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    O DIA EM QUE  MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL               [ Paulo Cesar Pinheiro & W das Neves ] O dia em que o morro descer e não for carnaval ninguém vai ficar pra assistir o desfile final na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil  (é a guerra civil) No dia em que o morro descer e não for carnaval não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral e cada uma ala da escola será uma quadrilha a evolução já vai ser de guerrilha e a alegoria um tremendo arsenal o tema do enredo vai ser a cidade partida no dia em que o couro comer na avenida se o morro descer e não for carnaval O povo virá de cortiço, alagado e favela mostrando a miséria sobre a passarela sem a fantasia que sai no jornal vai ser uma única escola, uma só bateria quem vai ser jurado? Ninguém gostaria que desfile assim não vai ter nada igual Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga nem autoridade que compre e...

rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

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                                              gilka machado 1893 - 1980       Rio   Da pétrea catedral de esplêndida cascata,  como de monjas longa e estranha procissão,  de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,  entoando religioso e frio cantochão.  E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,  ronca o rio raivoso em plena solidão,  e toda a frágil flor ripícola arrebata,  sepultando o que nele achara berço, então.  Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,  em seu constante curso ele os manifesta  todas as vibrações vitais do humano ser.  E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,  um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber  o ventre virginal e verde da floresta.                Gilka Machado - C ristais partido s, 1915    ...

electra - sophia m breyner - o grito é a insônia das coisas

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  [sophia de m bryener andresen 1919-2004  ]     ELECTRA  O rumor do estio atormenta a solidão de Electra  O sol espetou a sua lança nas planícies sem água  Ela solta os seus cabelos como um pranto  E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos  Onde em colunas verticais o calor treme  O seu grito atravessa o canto das cigarras  E perturba no céu o silêncio de bronze  Das águias que devagar cruzam seu voo  O seu grito persegue a matilha das fúrias  Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros  Ou nos cantos esquecidos do palácio  Porque o grito de Electra é a insônia das coisas    A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes  E a invocação exposta    Na claridade frontal do exterior  No duro sol dos pátios  Para que a justiça dos deuses seja convocada   [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]    . . . . . . .  ...

nua - lia d'assis - a nudez que abraça

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         NUA  Desejo ser um eu que desconheço  que saísse desse ventre de desespero    e nua caminhasse por incertos trajetos  sem culpas nem desculpas nem despedidas  e nua entoasse a canção da liberdae  sempre tecida na opressão do cárcere  e nua abraçasse todos os receios  falhas rusgas erros próprios e alheios  e nua dançasse onde a via termina          [ Lia d'Assis , F also infinit o , ed Patuá ]  . . . . . . .  .  .  .   . repara na lista : culpa, desespero, opressão, cárcere, falhas, um turbilhão de tensões  e dores que contrastam com a necessidade de nudez . não aquela da fuga das roupagens -- máscaras --  que a realidade nos impõe, mas a nudez que enfrenta com lirismo essa caçamba de bagulhos ruins. um lirismo sem promessa. é muito lindo. ia escrever " linda " , tive receio. agora já era. olhem, a expressão "canção de liberdade" não é n...

pesadelo - paulo cesar pinheiro - resenha

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           P E S A D E L O  Quando o muro separa uma ponte une  Se a vingança encara o remorso pune  Você vem me agarra, alguém vem me solta  Você vai na marra, ela um dia volta  E se a força é tua ela um dia é nossa  Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  Você corta um verso, eu escrevo outro  Você me prende vivo, eu escapo morto  De repente olha eu de novo  Perturbando a paz, exigindo troco  Vamos por aí eu e meu cachorro  Olha um verso, olha o outro  Olha o velho, olha o moço chegando  Que medo você tem de nós, olha aí  O muro caiu, olha a ponte  Da liberdade guardiã  O braço do Cristo, horizonte  Abraça o dia de amanhã  Olha aí           [ Maurício Tapajós & P C Pinheiro, 1976 ]    álbum: o importante é que a nossa emoção sobreviva - parte 2  -  1976 ...

ali, então - sophia de mello breyner - comentário

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  [ sophia  1919 - 2004 ]        ALI, ENTÃO  Ali, então em pleno mundo antigo  À sombra do cipreste e da videira  Olhando o longo tremular do mar  Num silêncio de luas e de trigo  (Como se a morte a dor o tempo e a sorte   Não nos tivessem nunca acontecido)  Em nossas mãos a pausa há-de poisar  Como o luar que poisa nas videiras  E em frente ao longo tremular do mar  Num perfume de vinho e de roseiras  A sombra da videira há-de poisar  Em nossas mãos e havemos de habitar  O silêncio das luas e do trigo  No instante ameaçado e prometido  E os poemas serão o próprio ar  — Canto do ser inteiro e reunido —  Tudo será tão próximo do mar  Como o primeiro dia conhecido      [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]    . . . . .  .  .  . texto metalinguístico, traz um caráter de reconstrução, nos versos. vejam, há a necessidade de um...

desenredo - paulo cesar pinheiro e dori caymmi

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          não é só isso          _ ajudando quem tem dificuldade com leitura _                    D E S E N R E D O            Caymmi & P Cesar Pinheiro   Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo   A morte tece seu fio de vida feita ao avesso   O olhar que prende anda solto   O olhar que solta anda preso   Mas quando eu chego eu me enredo   Nas tramas do teu desejo   O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo   A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo   O olhar que assusta anda morto   O olhar que avisa anda aceso   Mas quando eu chego eu me perco   Nas tranças do teu segredo   Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou   Vou-me embora pra bem longe   A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço   A morte que a vida anda armando, a vida que a morte a...

de um amor morto - sophia de mello breyner - o amor que a eternidade ignora - entendendo o poema

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  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria que algo ainda lhe pertencesse. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio e o peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a me...