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Mostrando postagens com o rótulo poesia

esboço -- gilka machado -- e as prévias do amor: mas não é só isso

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            não é só isso             _interpretação de texto_                                                                                              gilka machado 1893-1980        ESBOÇO   Teus lábios inquietos   pelo meu corpo   acendiam astros...   e no corpo da mata   os pirilampos   de quando em quando,   insinuavam   fosforecentes carícias...   e o corpo do silêncio estremecia,   chocalhava,   com os guizos   do cri-cri osculante   dos grilos que imitavam   a música de tua boca...   e no corpo da noite   as estrelas cantavam   com a voz trêmula e rútila   de teus beijos......

vento bravo - paulo cesar pinheiro - resenha

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            VENTO BRAVO           Edu Lobo & Paulo Cesar Pinheiro   Era um cerco bravo, era um palmeiral,   Limite do escravo entre o bem e o mal   Era a lei da coroa imperial   Calmaria negra de pantanal   Mas o vento vira e do vendaval   Surge o vento bravo, o vento bravo   Era argola, ferro, chibata e pau   Era a morte, o medo, o rancor e o mal   Era a lei da Coroa Imperial   Calmaria negra de pantanal   Mas o tempo muda e do temporal   Surge o vento bravo, o vento bravo   Como um sangue novo   Como um grito no ar   Correnteza de rio   Que não vai se acalmar   Se acalmar   Vento virador no clarão do mar   Vem sem raça e cor, quem viver verá   Vindo a viração vai se anunciar   Na sua voragem, quem vai ficar   Quando a palma verde se avermelhar   É o vento bravo   Como um sangue novo   Como um grito no ar...

o vazio desenhava desde sempre - sophia m breyner - comentário

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                                                                            [ sophia de mello breyner andresen 1919 - 2004 ]         O VAZIO DESENHAVA DESDE SEMPRE    O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto     Todas as coisas serviam para nos ensinar      A ardente perfeição da tua ausência        [Sophia M B Andresen, Geografia, 1967 ]     . . . . . . .  .  .  .   . poema lírico onde a tristeza é limpa, quase arquitetônica.  bem joão cabral mesmo. aqui, a ausência dói, mas é plena. intensa, pois  houve aprendizado. e este é tema recorrente, no livro: a ausência; o vazio. esses elementos (ausência, vazio e afins) têm vivacidade. são ativos no universo desses...

tocaia - lia d'assis - para enfrentar tabus

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         T O C A I A  Às vezes solidão me espreita  e sinto a morte amoitada  paciente senhora que aguarda  sussuros de suicida  Há dias em que admiro  a bravura dos que partem  sem adeuses ou cartas  sem unção nem perdão  Há dias em que avida  é um presente pesado      [ Lia d'Assis, F also infi ni t o, ed Patuá ]   . . . . . .  .  .  .   .  . o título põe em alerta : quem está de tocaia? a senhora dona morte ou a voz poética (eu lírico) que sente a morte espreitando? uma homanagem aos suicidas pela coragem de cuidar da própria vida. e da própria morte. olhem, é fundamental esse aceno ao indivíduo, num universo em que tomar conta da vida -- e da morte -- das gentes chega a ser um tabu. neste século 21, o tal discurso neoliberal individualiza os seres e os arremessa na bolha do consumo. sobra quase nada pra cuidar, dentro do corpo e da mente que possa ser chamado...

túmulo de lorca é poesia manifesto - sophia de mello breyner

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  federico garcía lorca 1898 - 1936 texto comentado de sophia m breyner:       TÚMULO DE LORCA   Em ti choramos os outros mortos todos  Os que foram fuzilados em vigílias sem data  Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias  Tão ignorados que nem sequer podemos  Perguntar por eles imaginar seu rosto  Choramos sem consolação aqueles que sucumbem  Entre os cornos da raiva sob o peso da força  Não podemos aceitar. O teu sangue não seca  Não repousamos em paz na tua morte  A hora da tua morte continua próxima e veemente  E a terra onde abriram a tua sepultura  É semelhante à ferida que não fecha  O teu sangue não encontrou nem foz nem saída  De Norte a Sul de Leste a Oeste  Estamos vivendo afogados no teu sangue  A lisa cal de cada muro branco  Escreve que tu foste assassinado  Não podemos aceitar. O processo não cessa  Pois nem tu foste poupado à patada da besta ...

língua - regina azevedo adoça o idioma

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          não é só isso     _ajudando na interpretação de texto_                                                L Í N G U A              [ Regina Azevedo ]     li um texto    com meu namorado    e agora é me come pra cima                       me come pra baixo    é que a vida inteira    tentamos fincar bandeiras    enquanto podíamos sambar    mas agora ele diz    me encoxa    e eu adoro                     claro       fico logo molhada     com essa ideia    de sobrepor camadas    de fazer da língua     a própria bala   .  .   ....

assim o amor - sophia de mello breyner busca ser racional com o sentimento

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                                                                           sophia de mello breyner andresen (1919-2004) uma resenha do poema de sophia de mello breyner: "assim o amor"       ASSIM O AMOR   Assim o amor   Espantado meu olhar com teus cabelos   Espantado meu olhar com teus cavalos   E grandes praias fluidas avenidas   Tardes que oscilam demoradas   E um confuso rumor de obscuras vidas   E o tempo sentado no limiar dos campos   Com seu fuso sua faca e seus novelos   Em vão busquei eterna luz precisa     [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]   . . . . . . . .  .  .  .   . eu lírico contempla o ser amado com assombro: os cabelos, a força quase selvagem (“cavalos”), paisagens abe...

velho arvoredo - paulo cesar pinheiro - entre a resistência e o abandono

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                   VELHO ARVOREDO                Paulo Cesar Pinheiro   Eu te esqueci muito cedo   Pelo tempo que passou   Tal como um velho arvoredo   Que o vento não derrubou   Tronco mudado em rochedo   Pedra transformada em flor   E eu fui ficando sozinho no pó do caminho   Me desenganando, sofrendo e chorando   E mantendo em segredo   Essa minha ilusão   Que me escapou de entre os dedos   Pra não sei que outras mãos   E eu me tornei o arremedo   De tudo aquilo que eu não sou   Mas eu jamais retrocedo   O que passou passou   Já superei, mas só eu sei   O mesmo jamais eu serei   Feito a madeira o machado inclinando   Eu por fora estou cicatrizando   E por dentro sangrando, afastado do medo   Mas sozinho, tal como o velho arvoredo   Que não serve ao tempo nem ao lenhador   E ...

sensual - gilka machado - qé o desejo que derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

o africano e o poeta - narcisa amália e a justiça social

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       O AFRICANO E O POETA   _ Nebulosas_                                               Narcisa Amália   No canto tristonho   Do pobre cativo   Que elevo furtivo,   Da lua ao clarão;   Na lágrima ardente   Que escalda-me o rosto,   De imenso desgosto   Silente expressão;   Quem pensa? — o poeta   Que os carmes sentidos   Concerta aos gemidos   De seu coração.   — Deixei bem criança   Meu pátrio valado,   Meu ninho embalado   da Líbia no ardor:   Mas esta saudade   Que em meu túmido ardor   Lacera-me o seio   Sulcado de dor,   Quem sente? — o poeta   Que o elísio descerra;   Que vive na terra   De místico amor!     (...)   Quem vê? — o poeta   Que expira em harpejos   Aos lúgubres beijos   Da fom...