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Mostrando postagens com o rótulo poesia

pássaro azul de bukowski

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 pássaro azul _ charles bukowski há um pássaro azul em meu peito  que quer sair mas sou duro demais com ele,  eu digo, fique aí,  não deixarei que ninguém o veja.  há um pássaro azul em meu peito  que quer sair mas eu despejo uísque sobre ele  e inalo fumaça de cigarro e as putas e os atendentes dos bares e das mercearias  nunca saberão que ele está lá dentro.  há um pássaro azul em meu peito  que quer sair mas sou duro demais com ele,  eu digo, fique aí, quer acabar comigo?  quer foder com minha escrita?  quer arruinar a venda dos meus livros na Europa?  há um pássaro azul em meu peito que quer sair  mas sou bastante esperto,  deixo que ele saia somente em algumas noites  quando todos estão dormindo.  eu digo, sei que você está aí, então não fique triste.  depois o coloco de volta em seu lugar,  mas ele ainda canta um pouquinho lá dentro,  não deixo que morra completamente...

navio fantasma e o amor à deriva - paulo cesar pinheiro

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  p c pinheiro     NAVIO FANTASMA          [ Francis Hime & P C Pinheiro ]  Os dias ainda suporto  Às noites é que eu me condeno  De madrugada eu acordo  Sangrando canções de veneno.  O sol dos teus olhos me mata  E a lua dos meus te apavora  Derrama-se o ouro na prata  Inventa-se o sangue da aurora.  Marés de saudade já cedo  Batendo nas praias vazias  E o meu coração nos rochedos  Morrendo em marés de agonia.  E assim são as águas da vida  E o mar é um mistério que pasma  Tu és a cidade perdida  E eu sou o navio fantasma.           [ Francis, 1980, Som livre ]  . . . . . .  .  .  .  .   .    . a canção encena um amor em desencontro radical: duas pessoas que se afetam, mas não se encontram no mesmo tempo emocional. ele vive a dor, a saudade, a vigília noturna; ela aparece como luz que mata...

volúpia - gilka machado e o veneno sinuoso

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                                                     gilka machado 1893-1980     VOLÚPIA  Tenho-te do meu sangue alongada nos veios;  à tua sensação me alheio a todo o ambiente;  os meus versos estão completamente cheios  do teu veneno forte, invencível e fluente.  Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,  o teu modo sutil, o teu gesto indolente.  Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,  minha íntima, nervosa e rúbida serpente.  Teu veneno letal torna-me os olhos baços,  e a alma pura, que trago e que te repudia,  inutilmente anseia esquivar-me aos teus laços.  Teu veneno letal torna-me o corpo langue,  numa circulação longa, lenta, macia,  a subir e a descer, no curso do meu sangue.     [ Gilka Machado, E stados d'alm a, 1917 ]       ...

sedução - adélia prado - a poesia que envolve

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       não é só isso      _ajudar com interpretação de texto_         S E D U Ç Ã O  _  Adélia Prado  A poesia me pega com sua roda dentada,  me força a escutar imóvel  o seu discurso esdrúxulo.  Me abraça detrás do muro, levanta  a saia pra eu ver, amorosa e doida.  Acontece a má coisa, eu lhe digo,  também sou filho de Deus,  me deixa desesperar.  Ela responde passando  a língua quente em meu pescoço,  fala pau pra me acalmar,  fala pedra, geometria,  se descuida e fica meiga,  aproveito pra me safar.  Eu corro ela corre mais,  eu grito ela grita mais,  sete demônios mais forte.  Me pega a ponta do pé  e vem até na cabeça,  fazendo sulcos profundos.  É de ferro a roda dentada dela.    . . . . . . .  .  .   .    . perguntas para inciar a interperatação de texto: 1. o que acont...

metade de mim cavalo - poesia de sophia é construção da literatura

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  sophia m breyner 19019-2004 poesia "no deserto" de sophia breyner comentada      _  NO DESERTO  _  Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino  Eu te debelo com espora e rédea  Para que não te percas nas cidades mortas    Para que não te percas  Nem nos comércios de Babilónia  Nem nos ritos sangrentos de Nínive   Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo  Para o perfume limpo do deserto  Para a sua solidão de extremo a extremo  Por isso te debelo te combato te domino  E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém  Para poder soltar-te livre no deserto  Onde não somos nós dois mas só um mesmo  No deserto limpo com seu perfume de astros  Na grande claridade limpa do deserto  No espaço interior de cada poema  Luz e fogo perdidos mas tão perto  Onde não somos nós dois mas só um mesmo       [ G eografi a, 1967, Sophia M B Andresen ] ...

geografia: breve mapa do livro de sophia de mello breyner

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  [ sophia de mello breyner andresen 1919 - 2004 ]              geografia - 1967     poesia de sophia cobra do mundo que volte a ser justo        .    .   .  . . . . . . . . . .  .   .   . o que encontrará no livro "geografia": a luz é assunto recorrente, um  princípio ético antes de ser imagem poética. ela é verdade, justiça, ordem do mundo. exigência de que o real seja legível. e a natureza é uma medida para isso. mar, casa, jardim:   padrões de harmonia contra os quais o mundo histórico é comparado — e quase sempre reprovado. é um c lássico essa poesia há herança grega : forma, limite, proporção. mesmo assim, é poesia ardente e rigorosa ao mesmo tempo . emoção contida com um eu lírico  discreto, p ouca confissão psicológica.  o pa ssado surge como lembrança de um mundo que fazia sentido. já o presente aparece como queda, ruído, injus...

esboço -- gilka machado -- e as prévias do amor: mas não é só isso

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            não é só isso              _interpretação de texto_                                                                                       gilka machado 1893-1980        ESBOÇO   Teus lábios inquietos   pelo meu corpo   acendiam astros...   e no corpo da mata   os pirilampos   de quando em quando,   insinuavam   fosforecentes carícias...   e o corpo do silêncio estremecia,   chocalhava,   com os guizos   do cri-cri osculante   dos grilos que imitavam   a música de tua boca...   e no corpo da noite   as estrelas cantavam   com a voz trêmula e rútila   de teus beijos...     ...

vento bravo - paulo cesar pinheiro - resenha

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            VENTO BRAVO           Edu Lobo & Paulo Cesar Pinheiro   Era um cerco bravo, era um palmeiral,   Limite do escravo entre o bem e o mal   Era a lei da coroa imperial   Calmaria negra de pantanal   Mas o vento vira e do vendaval   Surge o vento bravo, o vento bravo   Era argola, ferro, chibata e pau   Era a morte, o medo, o rancor e o mal   Era a lei da Coroa Imperial   Calmaria negra de pantanal   Mas o tempo muda e do temporal   Surge o vento bravo, o vento bravo   Como um sangue novo   Como um grito no ar   Correnteza de rio   Que não vai se acalmar   Se acalmar   Vento virador no clarão do mar   Vem sem raça e cor, quem viver verá   Vindo a viração vai se anunciar   Na sua voragem, quem vai ficar   Quando a palma verde se avermelhar   É o vento bravo   Como um sangue novo   Como um grito no ar...

o vazio desenhava desde sempre - sophia m breyner - comentário

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                                                                            [ sophia de mello breyner andresen 1919 - 2004 ]         O VAZIO DESENHAVA DESDE SEMPRE    O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto     Todas as coisas serviam para nos ensinar      A ardente perfeição da tua ausência        [Sophia M B Andresen, Geografia, 1967 ]     . . . . . . .  .  .  .   . poema lírico onde a tristeza é limpa, quase arquitetônica.  bem joão cabral mesmo. aqui, a ausência dói, mas é plena. intensa, pois  houve aprendizado. e este é tema recorrente, no livro: a ausência; o vazio. esses elementos (ausência, vazio e afins) têm vivacidade. são ativos no universo desses...

tocaia - lia d'assis - para enfrentar tabus

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         T O C A I A  Às vezes solidão me espreita  e sinto a morte amoitada  paciente senhora que aguarda  sussuros de suicida  Há dias em que admiro  a bravura dos que partem  sem adeuses ou cartas  sem unção nem perdão  Há dias em que avida  é um presente pesado      [ Lia d'Assis, F also infi ni t o, ed Patuá ]   . . . . . .  .  .  .   .  . o título põe em alerta : quem está de tocaia? a senhora dona morte ou a voz poética (eu lírico) que sente a morte espreitando? uma homanagem aos suicidas pela coragem de cuidar da própria vida. e da própria morte. olhem, é fundamental esse aceno ao indivíduo, num universo em que tomar conta da vida -- e da morte -- das gentes chega a ser um tabu. neste século 21, o tal discurso neoliberal individualiza os seres e os arremessa na bolha do consumo. sobra quase nada pra cuidar, dentro do corpo e da mente que possa ser chamado...

túmulo de lorca é poesia manifesto - sophia de mello breyner

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  federico garcía lorca 1898 - 1936 texto comentado de sophia m breyner:       TÚMULO DE LORCA   Em ti choramos os outros mortos todos  Os que foram fuzilados em vigílias sem data  Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias  Tão ignorados que nem sequer podemos  Perguntar por eles imaginar seu rosto  Choramos sem consolação aqueles que sucumbem  Entre os cornos da raiva sob o peso da força  Não podemos aceitar. O teu sangue não seca  Não repousamos em paz na tua morte  A hora da tua morte continua próxima e veemente  E a terra onde abriram a tua sepultura  É semelhante à ferida que não fecha  O teu sangue não encontrou nem foz nem saída  De Norte a Sul de Leste a Oeste  Estamos vivendo afogados no teu sangue  A lisa cal de cada muro branco  Escreve que tu foste assassinado  Não podemos aceitar. O processo não cessa  Pois nem tu foste poupado à patada da besta ...