o dia em que o morro descer e não for carnaval - paulo c pinheiro - resenha
O DIA EM QUE MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL
[ Paulo Cesar Pinheiro & W das Neves ]
O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)
No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual
Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.
[ Wilson das Neves & Paulo Cesar Pinheiro, 1996 ]
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samba profético e um quase manifesto a respeito da diferença de classe, no brasil de sua época (final do séc 20).
nada diferente de hoje, como se pode notar, porque o capitalismo -- que produz miséria -- não foi superado.
o carnaval é momento de união e festa. aqui, na canção, vai se tornar instante de rebeldia e luta. luta de classes, bom que se diga.
cada elemento do carnaval é reconfigurado: alas viram quadrilhas, evolução vira guerrilha, alegoria é arsenal e o efeito é claro: quando o povo só é visto como espetáculo, a explosão social é iminente, vir ameaça.
o termo "liga", com maiúscula, na última estrofe, se refere à liga das escolas de samba, um órgão que regula as agremiações e ajuda na organização dos desfiles.
o verbo "sambar", no penúltimo verso é emblemático: significa que os tais donos do poder vão penar, vão sofrer, pagar pela produção de miséria, ou seja vão pra cucuia, como se dizia no século 20.
quando até o verbo "sambar" deixa de ser dança, é porque a festa acabou faz tempo.
não se trata de apologia à violência, mas alerta político: se não houver harmonia, se não houver mínimo de condição de vida -- sem alegria -- vai ser guerra civil, simples assim.
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faísca : por que o "poder" tomou a alegria do povo, naquela época?
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