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Mostrando postagens com o rótulo critica

sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

sociedade do cansaço - a pancada na ditadura da perfomance

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  o início do livro de byung han: Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. (...)  O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo a Guerra Fria seguia esse esquema imunológico. (...)  Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, (...) Falta à di...

livros restantes - filme entrega mulheres feitas de memória, coragem e desejo

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  ana catarina e joílton " livros restantes " ( denise fraga, marcia paraíso, 2025 ) -- filme sobre ana catarina, mulher que pretende sair do brasil, rumo a portugal, mas que decide, antes, devolver os cinco livros que sobraram na estante, justamente para aquelas pessoas que deram a ela os livros e fizeram dedicatórias!...  o cenário é florianópolis, barra da lagoa, beira de praia. ana catarina foi professora e, perto da terceira idade, engendra a ideia de sair do lugar, do país... existe um motivo importante, pesado, movendo isso, você descobre no fim. é impactante. assim como são impactantes as demais figuras femininas que gravitam em torno ana catarina, desde a mãe, a filha e até outras figuras que ela reencontra, por conta do plano de devolver livros que ganhou. as figuras masculinas são pequenas, com dificuldades por vezes insuperáveis, outras que são resolvidas depois de tempo, resignação e alguma culpa... os homens, nesse filme, são quase um estorvo, salvo joilton (mar...

a paixão segundo g.h. - leitura afetiva de um livro áspero

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  romance -- vou chamá-lo assim -- de clarice lispector , 1964 narrado em primeira pessoa, voz feminina. já aviso: "a paixão segundo gh" não é, livro pra consumo, é pra companhia. então, segura na mão dela e segue. logo no espaço da dedicatória, lemos:              _A possíveis leitores_ Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. (...) Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. (...)           [ A paixão segundo GH, C Lispector ]  . . . . . . . .  .  .  .   . depois, vem o início que é de uma estrutura incomum: são seis travessões, antes da prmeira palavra, assim: —  —   —  —  —  —    estou procurando, estou procurando. Estou tentand...

uma mulher morta a cada 33 horas no estado de são paulo

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  notícia de fevereiro, 2026 : " Entre janeiro e dezembro, foram 266 ocorrências — em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas.  Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de casos de feminicídio desde o início da série histórica, em 2018. " cbn - feminicídio dentro do shop abc, s paulo  - l er matéria tod a  . . . . . . . . .  .  .  .   . em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas, quase uma por dia!! olhem, no universo que me cabe, que é o da educação, não há como fugir à pergunta: escolas estão trabalhando essa questão do feminicídio? pois é... e não me refiro a uma proposta de produção de texto perdida no meio do ano letivo ou uma conversa em sala de aula sobre o tema, a partir da leitura de um texto literário. não. é preciso que todos os professores e professoras participem do barulho. uma semana de atividade, em todas as aulas, sobre combate ao feminicídio. arte, ciência, filosofia, educação física, humanidades, ...

o dia em que o morro descer e não for carnaval - paulo c pinheiro - resenha

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    O DIA EM QUE  MORRO DESCER E NÃO FOR CARNAVAL               [ Paulo Cesar Pinheiro & W das Neves ] O dia em que o morro descer e não for carnaval ninguém vai ficar pra assistir o desfile final na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil  (é a guerra civil) No dia em que o morro descer e não for carnaval não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral e cada uma ala da escola será uma quadrilha a evolução já vai ser de guerrilha e a alegoria um tremendo arsenal o tema do enredo vai ser a cidade partida no dia em que o couro comer na avenida se o morro descer e não for carnaval O povo virá de cortiço, alagado e favela mostrando a miséria sobre a passarela sem a fantasia que sai no jornal vai ser uma única escola, uma só bateria quem vai ser jurado? Ninguém gostaria que desfile assim não vai ter nada igual Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga nem autoridade que compre e...

desejo que mata

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  [ fernando g - níquel náusea ] o desejo. de onde ele vem ? como vive? como se reproduz? aquilo que move. isso: desejo é o que move. para descartes, séc 18, o tal desejo é uma espécie de agitação da alma. como a definição de alma é algo por demais contraditório e quase lúdico, pulemos descartes.  mas o desejo é algo que nos incomoda porque geralmente o que se deseja pode estar longe, então entramos em crise de ansiedade. agora, quando o  desejado fica apenas na cabeça de quem deseja, daí vira artista.  e jeremias? o jeremias da tirinha desejava não desejar e por isso morreu? ou jeremias desejava morrer, então pediu para não ter desejos? é isso? [ deixa nos comentários sua ideia e ajude um ansioso ]

discurso que isola pessoas

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                                               mariane santana, pensadora, é categórica na leitura de um discurso neoliberal que vem levando muita gente a uma situação complicada. compra-se a ideia, hoje, de que cuidando do corpo, dormindo tranquilo, tomando água e afins, a vida será melhor e haverá sucesso. o que está fora do discurso é o contexto social ligado à pessoa que quer encarar essa ideia de curar-se dos males existentes e os possíveis, apenas com movimentos físicos.  olhem, é terrível. esse discurso individualista faz determinada pessoa crer que se há desconforto -- no trabalho ou na mente -- ele seria responsabilidade da própria pessoa que não se cuidou bem. o tal discurso do auto-cuidado acima de qualquer coisa desconsidera, de fato, a condição social existente. desconsidera seu status, seu entorno. então, lentamente, silencia essa figura e faz com qu...

pedras no sapato

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                                       no livro " f elicidade ", gianetti expõe que no século 18, o período iluminista apresentava uma equação que pressupunha uma harmonia entre a busca da felicidade e o progresso da civilização.  não é de hoje que se tem como senso comum que mais conforto material pode gerar melhoria nas ansiedades e até mais longevidade. o romance " a cidade e as serras " (séc 19) do eça de queiroz, vai na mesma linha, quando resume a felicidade ao grau de civilidade de uma pessoa. no final do livro, a teoria é mudada, mas fica o registro de um senso comum à época de eça: civilização é tudo.  atualmente, por onde houver um estudante de classe média fazendo vestibular, país afora, saberemos que a busca é por um curso que "dê dinheiro". nenhum curso dá dinheiro, a gente sabe, mas essa ideia é a cenoura na frente do cavalo. é a busca de uma felicidade que de...

amor de violeta - narcisa amália

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  AMOR DE VIOLETA       As violetas são os serenos pensamentos que    o mistério e a solidão despertam na alma verdejante      da esplêndida primavera.                                   Luís Guimarães Júnior   Esquiva aos lábios lúbricos Da louca borboleta, Na sombra da campina olente, formosíssima Vivia a violeta. Mas uma virgem cândida Um dia ante ela passa, E vai colher mais longe uma faceira hortênsia Que à loura trança enlaça. "Ai!" geme a flor ignota: "Se pela cor brilhante Que tinge a linda rosa, a tinta melancólica Trocasse um só instante; Como sentira, ébria De amor, de mágoa enleio, Do coração virgíneo  as pulsações precipites. Unida ao casto seio!" Doudeja a criança pálida Na relva perfumosa, E a meiga violeta ao pé mimoso e célere Esmaga caprichosa. Curvando a fronte exânime Soluça a flor singela: "Ah! como sou feliz!  Perfumo a pl...

opúsculo humanitário - nísia floresta brasileira augusta - resenha

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                          dionísia pinto lisboa   - -  nome oficial       nísia floresta brasileira augusta   - -  pseudônimo - "floresta" faz referência ao sítio onde nasceu (rio g do norte) - "augusta" é o nome do marido falecido, "augusto" filha do português dionísio pinto lisboa e da brasileira antônia clara freire, dionísia nasceu no rio grande do norte, em 1810. morreu na frança, em 1885.  no início de " opúsculo humanitário ", nísia expõe o modo como mulheres foram tratadas em épocas distantes, como na grécia, pérsia e egito, por exemplo, antes de cristo. passa pelos pensamentos de platão, sócrates, cita dario, safo, perictione (mãe de platão), aspasia, indo à idade média, chegando até -- mais recente --, a cornelia bororquia. vale explicação: " cornelia bororquia " é nome de um livro anticlerical, do final do século 18, com subtítulo: " a verdadeira história da judith espan...