sociedade do cansaço - a pancada na ditadura da perfomance

 

o início do livro de byung han:

Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. (...) O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo a Guerra Fria seguia esse esquema imunológico. (...) Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, (...) Falta à diferença, de certo modo, o aguilhão da estranheza, que provocaria uma violenta reação imunológica. Também a estranheza se neutraliza numa fórmula de consumo. O estranho cede lugar ao exótico(...)
   [ Byung-Chul Han, A sociedade do cansaço, ed Vozes]
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resuminho: sociedade do séc 21 está diferente do que se viu no séc 20: lá havia alteridade que causava estranheza, como num sistema imunológico. alteridade é o outro enquanto tal, diferente de mim. a sociedade se organizava pela exclusão do outro, pelas oposições aprendidas desde a guerra fria... combatia-se o estranho. segundo han, a dupla "alteridade-estranheza" está dominada agora pela "diferença", ou seja, o diferente, o estranho, virou exótico. o diferente não causa estranheza mais, é consumo mesmo. tudo se consome, de certa forma. 
nessa linha do individualismo-que-evita-sofrimento, o século 21 trouxe ideia do desempenho, da produtividade, do poder do indivíduo que tudo pode. existe agora excesso e isso sufoca.
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na sequência, han cita baudrillard: "A violência não provém apenas da negatividade, mas também da positividade, não apenas do outro ou do estranho, mas também do igual. Baudrillard aponta claramente para essa violência da positividade quando escreve sobre o igual:  'Quem vive do igual, também perece pelo igual' (...) Num sistema onde domina o igual só se pode falar de força de defesa em sentido figurado. A defesa imunológica volta-se sempre contra o outro ou o estranho em sentido enfático. O igual não leva à formação de anticorpos. Num sistema dominado pelo igual não faz sentido fortalecer os mecanismos de defesa."
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olhem, em han, o negativo seria aquilo que freia. agora, a necessidade de muito desempenho, a tal positividade plena, acaba fazendo com que pessoas se distanciem dessa ideia de autoridade, limite ou afins. tudo parece aberto e a armadilha está pronta. a figura humana, então, mergulha no trilho da produtividade, do empenho acadêmico, o empenho físico e o inferno começa. a ansiedade mora aí. 
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ainda no primeiro terço do livro de byung han, temos isso:
A positivação do mundo faz surgir novas formas de violência. Essas não partem do outro imunológico. Ao contrário, elas são imanentes ao sistema. Precisamente em virtude de sua imanência, não evocam defesa imunológica. (...) A Medusa é quiçá o outro imunológico em sua forma extrema. Constitui uma alteridade radical, que nem sequer se pode olhar, sem sucumbir. (...) A violência da positividade não é privativa, mas saturante; não excludente, mas exaustiva.  (...) Tanto a depressão quanto o Tdah ou o SB [burnoutapontam para um excesso de positividade. 
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então, o que nossa conhecida medusa faz aqui? preparem-se.

anteriormente, o terror vinha de fora, agora é de dentro do sistema. a medusa é a alteridade radical, ou seja, algo tão do outro que paralisa, nem dá pra encarar. medusa é o modelo antigo, século 20. ela é usada aqui como contraste entre o antes e o agora. hoje, não há medusa. a violência, agora, é imanente, ou seja, está no sistema, na vida social, neste  século 21, quando tudo é produção, comunicação, desempenho. isso exaure.
de novo: positividade tóxica produz pessoas que se exploram. nem dá pra falar em alienação clássica, marxista, mas autodestruição mesmo. essas pessoas se entregam às ações ligadas ao desempenho, entregam corpo e alma a um sistema que se nutre dessa energia e dá em troca isto: burnout, tdah, ansiedade, sensação de vazio, perda da capacidade de contemplação e, principalmente, solidão.
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 desenhando :

    século XX  →  medo do inimigo
    hoje  → individualismo;  medo de não dar conta  

    antes  →  defesa contra o outro
    agora  →  autoexploração.

    resultado  →  cansaço
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agora, literatura, dentro do livro "a sociedade do cansaço" :

O relato de Melville “Bartleby”, que foi objeto de diversas interpretações metafísicas ou teológicas . Essa “história provinda da Wall Street” descreve um universo de trabalho desumano, (...) Apresenta-se detalhadamente a atmosfera sombria, hostil do escritório (...) A melancolia e o mau-humor, de que se fala constantemente no relato, forma a atmosfera fundamental da narrativa. (...)
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herman melville escreveu este conto e publicou em 1853. ficção. 
bartleby é um escriturário que foi contratado por um advogado para copiar textos jurídicos. wall street, n. york. num determinado momento, quando pedem que ele revise alguns textos que copiou, ele diz que prefere não fazer. I would prefer not tocom o passar do tempo, bartleby faz cada vez menos tarefas; acaba demitido mas não sai do prédio. o escritório mudade lugar, mas bartleby continua lá, chegando a ser preso, tempos depois. na cadeia, recusa-se a comer, morre de inaninação. 

olhem, bartleby não grita, não denuncia, não se revolta, simplesmente para. no século 21, pessoas na engrenagem do trabalho não param, elas querem fazer mais. 
no livro que publiquei em 2014, "literatura não autorizada" [ver "meus livros", neste blog], trato do episódio de mita diran, que em dezembro de 2013, na indonésia, morreu por excesso de trabalho. 
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a parte final, capítulo 7 : "sociedade do cansaço" traz isto:

A sociedade do cansaço, enquanto uma sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping. Nesse meio tempo, também a expressão negativa “doping cerebral” é substituída por “neuro-enhancement” (melhoramento cognitivo). O doping possibilita de certo modo um desempenho sem desempenho. Todavia, há também cientistas sérios que argumentam que será de certo modo irresponsável não utilizar tais substâncias. Um cirurgião que poderia operar de maneira mais concentrada com ajuda desse neuro-enhancer faria menos erros e poderia salvar mais vidas. (...)
A um cansaço calado, cego, dividido, Handke contrapõe um cansaço falaz, reconciliador. O cansaço, enquanto um “mais do menos eu” abre um entre na medida em que afrouxa as presilhas do eu.  (...) No tornar-se menos do eu, desloca-se o peso do ser do eu para o mundo. É um “cansaço que confia no mundo”; (...) Ele “abre” o eu, torna-o “permeável” para o mundo. (...)
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o que seria o "mais do menos-eu" ? afrouxar a identidade do fazedor de tarefas. diminuir, dentro do "eu" aquelas metas todas de desempenho. trata-se de um afrouxamento de identidade. esse menos eu deixa o mundo entrar. deixa o outro mais perto. diferente do bournot, o cansaço fundamental aqui pode aproximar, torna este "eu" disponível. o cansaço fundamental é a pausa. isso devolve o mundo. claro está que essa questão é inerente -- hoje -- à altura social de quem pode raciocinar em cima desse dilema. uma elite endinheirada pode repensar modus operandi de vida e pausar. mas e o frentista de posto de gasolina? ele precisa fazer entregas, quando está de folga, pra ajustar as contas. e o pedreiro que faz bico aos domingos pra pagar a parcela da moto? e os professores brasileiros que se esfarelam em mais de duas escolas, na escala 6 por 1? pausar?... ahã. sei.
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tese central de byung-chul han em "sociedade do cansaço": o imperativo permanente de performar corrói o sujeito e destrói o comum.
performar não é o mal em si. o problema é quando performar vira condição para existir. 
importante mesmo, de verdade, interromper a ideia de que a gente só existe se performar.
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enfim, a ideia é divulgar a necessidade de se combater essa postividade, combater a pressa, o individualismo, porque o humano é espécie coletiva. sim, precisa olhar o outro, tocar outro, pausar -- de algum jeito -- o "corre" e interagir porque a interação é energia. ponderar. ponderar... olhem, o humano precisa estar inserido num sistema que crie ajuda aos próximos. harmonia. isso talvez melhore a vida de quem precisa completar renda trabalhando sete dias na semana, como falei anteriromente. harmonia e discutir o sistema capitalista. 

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 mais sobre o livro de han :



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