volúpia - gilka machado e o veneno sinuoso
gilka machado 1893 - 1980
VOLÚPIA
Tenho-te do meu sangue alongada nos veios;
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.
Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.
Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura, que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-me aos teus laços.
Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.
[ Gilka Machado, Estados d'alma, 1917 ]
notas_
volúpia – prazer intenso; aquilo que se liga ao desejo físico
alheio – desligado; que não presta atenção ao que está ao redor
rúbida – avermelhada; rubra; excitação
baços – sem brilho, opacos; olhos sem vivacidade
coleios – movimentos sinuosos, ondulantes
volúpia – prazer intenso; aquilo que se liga ao desejo físico
alheio – desligado; que não presta atenção ao que está ao redor
rúbida – avermelhada; rubra; excitação
baços – sem brilho, opacos; olhos sem vivacidade
coleios – movimentos sinuosos, ondulantes
langue – enfraquecido, lânguido; abatido pelo excesso de sensação
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o desejo aparece como veneno que corre no sangue. amor é uma força física, invasiva, quase tóxica. mas não é só isso.
a voz lírica é tomada pelo desejo. o outro (ou a pulsão erótica) se infiltra nos veios, molda gestos, altera o corpo. o erotismo é visceral.
a voz lírica é tomada pelo desejo. o outro (ou a pulsão erótica) se infiltra nos veios, molda gestos, altera o corpo. o erotismo é visceral.
a "alma pura" (verso 10) tenta resistir, mas não dá. o veneno letal (redundância poética aceitável) se infiltra e domina.
o texto traz a metalinguagem, no início, quando o eu lírico diz que está escrevendo e dominada pelo desejo, chamado aqui de veneno.
o texto traz a metalinguagem, no início, quando o eu lírico diz que está escrevendo e dominada pelo desejo, chamado aqui de veneno.
atenção para os termos "veneno”: é prazer que intoxica, vicia, domina. a mulher é o que deseja. e este "serpente”: erotismo sinuoso, insinuante, ligado ao corpo e à tentação, uma vez que esse réptil ecoa na cultura do velho testamento cristão.
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olhem, o desejo muitas vezes é reprimido, no mundo humano, por conta dessa cultura conservadora e castradora chamada cristandade. assim: quando se trata de agradecer com emoção um carinho, um apoio, é preciso pensar várias vezes... agora, quando estamos com dor ou nos sentindo injustiçados, abrimos a caixa de ferramentas e soltamos palavras terríveis, destilamos raiva. o xingar é universal; o amar é particular. eu entendo que a moral sustenta saúde das relações e envolve ética de combinações sociais que, por vezes são hipócritas, por vezes carregadas de trauma ou deseducação. entendo. e seguimos reprimindo sentimento bom.
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