volúpia - gilka machado e o veneno sinuoso
gilka machado 1893 - 1980 VOLÚPIA Tenho-te do meu sangue alongada nos veios; à tua sensação me alheio a todo o ambiente; os meus versos estão completamente cheios do teu veneno forte, invencível e fluente. Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os, o teu modo sutil, o teu gesto indolente. Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios, minha íntima, nervosa e rúbida serpente. Teu veneno letal torna-me os olhos baços, e a alma pura, que trago e que te repudia, inutilmente anseia esquivar-me aos teus laços. Teu veneno letal torna-me o corpo langue, numa circulação longa, lenta, macia, a subir e a descer, no curso do meu sangue. [ Gilka Machado, E stados d'alm a, 1917 ] ...