sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral
gilka machado 1893-1980
Sensual
Quando, longe de ti, solitária, medito
neste afeto pagão que envergonhada oculto,
vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito
que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.
A febril confissão deste afeto infinito
há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
à minha castidade é como que um insulto.
Se acaso te achas longe, a colossal barreira
dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volúpia a escosa e fria lesma
minha carne poluir com repugnante baba…
[ Gilka Machado, Poesia reunida, Círculo de poemas ]
altaneira - elevada; pode ser arrogante também
lascivo - cheio de desejo; libidinoso
escosa - ardente; irritante
. . . . . . . . . . . . .
o texto: é patente um conflito entre o desejo e a moral. vale lembrar que estamos pela década de 1920, época em que o livro se publica. o poema trata do corpo do outro e a proximidade com o seu -- o corpo do eu lírico. mas não é só isso.
"afeto pagão" é expressão que dá ideia de culpa ("envergonhada oculto", verso 2). existe carinho, mas, os termos "pagão" e "envergonhada" revelam pecado embutido aí. alguma censura, medo.
quando o outro está longe, há algum controle, mas quando o eu lírico está perto, é o colpaso. gilka é corajosa. a voz do poema é feminina.
e essa carne poluída e o resto que se segue mancham a identidade quem está falando. "lesma" e "baba" são metáforas dos fluidos corporais, sim senhores e senhoras. é volúpia, luxúria. erotismo e um tanto de nojo. o desfecho é a mistura de augusto dos anjos e hilda hilst. fascinante.
. . . . . . . . . .
faísca : a volúpia é suja ou suja é a sociedade que a chama assim?
. . . . . . . . . .
importante_
gilka é uma das fundadoras do partido republicano feminino em 1910, sendo que uma das pautas era a busca pelo voto feminino --- desejo que viraria realidade apenas na década de 1930
. . . . . . . . . . .
saiba mais ...
(...) Casou-se em 1910 com Rodolpho Machado, também literato. (...) tiveram dois filhos: Hélio, que morreu precocemente, e Heros, que se consagrou como bailarina com o nome de Eros Volúsia. (...) sua aclamação como a maior poetisa brasileira ocorreria em 1931, através de um concurso promovido pela revista O Malho. (...) Em 1932, alguns poemas de Gilka foram traduzidos para o espanhol, pelo boliviano Gregório Reynoldes (1882-1948), sendo publicados com o título Sonetos y poemas. Vanguardista, Gilka foi pioneira da poesia erótica feminina, (...) o que a torna admirada, principalmente por mulheres, que viam sua poesia como “porta-voz na representação de experiências da intimidade”, numa época em que estes sentimentos não eram expostos. Por outro lado, sofre forte censura pela crítica conservadora. (...) foi agraciada com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 1979 (...)
- por Maria Fangueiro



Comentários
Postar um comentário
comente --