Postagens

Mostrando postagens com o rótulo gilka

fecundação - gilka machado: erotismo que liberta

Imagem
  gilka machado 1893 - 1980    Fecundação Teus olhos me olham  longamente,  imperiosamente...  de dentro deles teu amor me espia.  Teus olhos me olham numa tortura  de alma que quer ser corpo,  de criação que anseia ser criatura  Tua mão contém a minha  de momento a momento:  é uma ave aflita  meu pensamento  na tua mão.  Nada me dizes,  porém entra-me a carne a persuasão  de que teus dedos criam raízes  na minha mão.  Teu olhar abre os braços,  de longe,  à forma inquieta de meu ser;  abre os braços e enlaça-me toda a alma.  Tem teu mórbido olhar  penetrações supremas  e sinto, por senti-lo, tal prazer,  há nos meus poros tal palpitação,  que me vem a ilusão  de que se vai abrir  todo meu corpo  em poemas.      [ Gilka Machado, S ublimaçã o, 1928]        nota_      mórbido:   se...

volúpia - gilka machado e o veneno sinuoso

Imagem
                                                     gilka machado 1893-1980     VOLÚPIA  Tenho-te do meu sangue alongada nos veios;  à tua sensação me alheio a todo o ambiente;  os meus versos estão completamente cheios  do teu veneno forte, invencível e fluente.  Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,  o teu modo sutil, o teu gesto indolente.  Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,  minha íntima, nervosa e rúbida serpente.  Teu veneno letal torna-me os olhos baços,  e a alma pura, que trago e que te repudia,  inutilmente anseia esquivar-me aos teus laços.  Teu veneno letal torna-me o corpo langue,  numa circulação longa, lenta, macia,  a subir e a descer, no curso do meu sangue.     [ Gilka Machado, E stados d'alm a, 1917 ]       ...

esboço -- gilka machado -- e as prévias do amor: mas não é só isso

Imagem
            não é só isso              _interpretação de texto_                                                                                       gilka machado 1893-1980        ESBOÇO   Teus lábios inquietos   pelo meu corpo   acendiam astros...   e no corpo da mata   os pirilampos   de quando em quando,   insinuavam   fosforecentes carícias...   e o corpo do silêncio estremecia,   chocalhava,   com os guizos   do cri-cri osculante   dos grilos que imitavam   a música de tua boca...   e no corpo da noite   as estrelas cantavam   com a voz trêmula e rútila   de teus beijos...     ...

rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

Imagem
                                              gilka machado 1893 - 1980       Rio   Da pétrea catedral de esplêndida cascata,  como de monjas longa e estranha procissão,  de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,  entoando religioso e frio cantochão.  E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,  ronca o rio raivoso em plena solidão,  e toda a frágil flor ripícola arrebata,  sepultando o que nele achara berço, então.  Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,  em seu constante curso ele os manifesta  todas as vibrações vitais do humano ser.  E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,  um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber  o ventre virginal e verde da floresta.                Gilka Machado - C ristais partido s, 1915    ...