esboço -- gilka machado -- e as prévias do amor: mas não é só isso
não é só isso
_ajuda na interpretação de texto_

gilka machado 1893-1980
ESBOÇO
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
[ Gilka Machado, Sublimação, 1928]
nota_
osculante - intimamente ardente
rútila - brilhante; cintilante
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o que você leu? se enxergou que o texto é erótico, estamos indo bem. mas não é só isso. foi publicado por uma mulher, em 1928, e isso diz o quê?
[ responda por escrito, depois volte aqui e veja se o que escrevi combina com o que entendeu ]
vejam: é da boca que sai o poema. pela boca são intensas as carícias, deixando o corpo estremecido. o poema é resultado da atração, do desejo. trata-se de uma experiência que sacode, tritura, deixa o corpo em estado de sobressalto...
e o título "esboço"? o que parece significar? -- ao final do post, vou sugerir resposta
voltando aos versos: a natureza está participando do movimento; veja os termos: "chocalha", "cri-cri", "cantavam"... desde insetinhos brilhantes até estrelas, tudo se move, brilha, combinando com os movimentos da sedução. os lábios dele fazem os astros brilharem mais! esse brilho é a metáfora do que está para acontecer. o encontro dos corpos entre beijos.
entendeu que é erótico e não pornográfico? perfeito. aqui, há sedução e não descritivismo de relações físicas, simplesmente.
na lata_
a linguagem que parece romântica no início, vai ficando mais moderna, crua, revelendo uma prévia de intensa relação sexual que o texto, aqui, não descreve explicitamente, mas a sugestão está em quase todos os versos. é o desejo fazendo esparramas. o amor aqui se dá por contágio.
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esboço: prévia da obra acabada; rascunho; ou seja a relação (sexual) não está explícita; outra ideia: esboço pode ser defesa estética, ou seja, em 1928, vindo de uma mulher, o texto poderia causar muitos incômodos, daí, nomear o poema como algo que está sendo prepaprado.
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respondendo à provocação lá do início desta postagem: a poesia de gilka é subestimada nas escolas, pelos menos, pelos materiais didáticos e até vestibulares que conheço até agora (enem, usp, unicamp, unesp, pucc, puc-sp etc). é o tal machismo estrutural, dentro da vida de muitos materiais didáticos. fica o registro. a mulher ditando o que sente e sendo protagonista, porque quem está inquieto é o outro, não a voz feminina.
usa os comentários, diga o que você pensa sobre esse texto de gilka, porque além de ajudar o tal algoritmo de engajamento, pode fazer esse debate atingir mais pessoas. literatura agradece.
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(...) Casou-se em 1910 com Rodolpho Machado, também literato. Seu marido faleceu em 1923, (...) Gilka e Rodolpho tiveram dois filhos Hélio, e Heros, que se consagrou como bailarina com o nome de Eros Volúsia. (...) A sua aclamação como a maior poetisa brasileira ocorreria em 1931, através de um concurso promovido pela revista O Malho. (...) Em 1932, alguns poemas de Gilka foram traduzidos para o espanhol, pelo boliviano Gregório Reynoldes (1882-1948), sendo publicados com o título Sonetos y poemas. (...) o que a torna admirada, principalmente por mulheres, que viam sua poesia como “porta-voz na representação de experiências da intimidade”, numa época em que estes sentimentos não eram expostos. Por outro lado, sofre forte censura pela crítica conservadora. (...) foi agraciada com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 1979, pela publicação Poesias completas. (...)
- - por maria fangueiro

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