rio - gilka machado - quando a natureza ganha corpo

 

                                            gilka machado 1893 - 1980

      Rio

 Da pétrea catedral de esplêndida cascata,
 como de monjas longa e estranha procissão,
 de águas alvo cortejo, em curvas, se desata,
 entoando religioso e frio cantochão.

 E, às vezes, esbordoando as rochas, pela mata,
 ronca o rio raivoso em plena solidão,
 e toda a frágil flor ripícola arrebata,
 sepultando o que nele achara berço, então.

 Há no rio a tristeza, a cólera e o prazer,
 em seu constante curso ele os manifesta
 todas as vibrações vitais do humano ser.

 E julgo-o, quando o vejo espreguiçado à sesta,
 um sátiro, com o corpo encurvado, a lamber
 o ventre virginal e verde da floresta.

              Gilka Machado - Cristais partidos, 1915

        nota_
    
ripícola – vegetação típica da margem de rio
   sátiro – figura da mitologia greco-romana ligada à embriaguez e ao desejo sexual; instinto sem culpa
   virginal – não se trata apenas de pureza moral, é contraste; intocabilidade simbólica diante do desejo do sátiro; casta, sim — mas só até a chegada dele. 
respira e segue.
    . . . . . . . . . . .

poema publicado em 1915.
em 
“rio”, a voz começa contida. pedra, catedral, cantochão. a própria estrutura do soneto evoca o parnasianismo. mas logo se percebe que a influência mais forte é o simbolismo, sobretudo no desvio subjetivo do final. o início é solene, quase mineral. bonito. é paisagem — mas distante. isso dura pouco. o rio vai ganhando humor, fúria, prazer. já não é cenário: é temperamento.
aqui está o melhor do estilo de gilka: transferir à natureza as vibrações do corpo humano. o rio sente. o rio deseja.
ao final, ela abandona qualquer disfarce estético: o rio é um sátiro curvado, lambendo, tocando o ventre da floresta. a imagem é clara, sensual, pagã. não há metáfora inocente. há corpo. contato. língua. 

o poema começa na catedral e termina no corpo. o desejo fluindo. ia dizer, se libertando... olhem, mesmo dentro de uma forma clássica — o soneto — gilka diz o que importa. importa o toque, o gozo, simples assim.
o rio não corre: encostaaté arrepia.
 . . . . . .   .   .   .

faísca: duvido que você escreva nos comentários o que acha disso tudo

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