pássaro azul de bukowski
pássaro azul _ charles bukowski
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí,
não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair mas eu despejo uísque sobre ele
e inalo fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares e das mercearias
nunca saberão que ele está lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, quer acabar comigo?
quer foder com minha escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na Europa?
há um pássaro azul em meu peito que quer sair
mas sou bastante esperto,
deixo que ele saia somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí, então não fique triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho lá dentro,
não deixo que morra completamente
e nós dormimos juntos
assim com nosso pacto secreto e isto é bom
o suficiente para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e você?
. . . . . . . . .
[ trad. pedro gonzaga ]
. . . . . . . . .
pássaro azul, aqui, pode ser aquilo que a gente esconde e, de repente, pode mudar o jeito de ser. ou mudar o entorno. pássaro azul, visivelmente, contrasta com o ambiente descrito pelo poeta. a ave geralmente é associada à leveza, liberdade e arte também, pois canta. esse pássaro pode causar incômodo. vejam que ele até cogita a ideia de que ele estragaria a venda de seus livros!...
olhem, o pássaro azul no peito, como um coração, deixa o poeta inquieto, incomodado, mas ele tem certeza de que deve mantê-lo preso, escondido. o texto expõe que algumas vezes o que temos a esconder não é algo feio. e parece que todo mundo tem alguma coisa pra esconder. e você?

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