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sensual - gilka machado - quando o desejo derrota a moral

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                                                      gilka machado 1893-1980         Sensual   Quando, longe de ti, solitária, medito  neste afeto pagão que envergonhada oculto,  vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito  que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.  A febril confissão deste afeto infinito  há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,  pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,  à minha castidade é como que um insulto.  Se acaso te achas longe, a colossal barreira  dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma  de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.  Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,  e sinto da volúpia a escosa e fria lesma  minha carne poluir com repugnante baba…        [ Gilka Machado, Poes...

1975 : lembro quase nada

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  entre 1973 e 74, passei a ir sozinho à escola . eu estava pelos 9 anos de idade e isso trazia certa noção de liberdade que eu não conseguia medir.  a questão nem envolvia chance de fazer o que quisesse, eu não tinha essa noção de poder. o lance era estar sozinho, no calor eterno da cidade de ribeirão preto, isso fascinava.  ir e vir por conta própria. a distância para escola era de um quilômetro, desde a rua altino arantes, até o grupo escolar guimarães junior, em ribeirão preto. como algumas vezes ia ziguezagueando, entre uma calçada e outra --  pra fugir de cães de rua --  o percurso percorrido ficava maior.  estar sem a presença austera da mãe era sim um tipo de libertação. eu não cabia no que eu era.  ir sozinho pra escola não era difícil: praticamente descer a rua barão do amazonas até a rua lafayette. pronto. eu ia e voltava sozinho, algumas vezes. era realmente livre? não sei. é tarde pra saber. pelos idos de 1975, ouvia raul seixas no rádio, ...

o africano e o poeta - narcisa amália e a justiça social

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       O AFRICANO E O POETA   _ Nebulosas_                                               Narcisa Amália   No canto tristonho   Do pobre cativo   Que elevo furtivo,   Da lua ao clarão;   Na lágrima ardente   Que escalda-me o rosto,   De imenso desgosto   Silente expressão;   Quem pensa? — o poeta   Que os carmes sentidos   Concerta aos gemidos   De seu coração.   — Deixei bem criança   Meu pátrio valado,   Meu ninho embalado   da Líbia no ardor:   Mas esta saudade   Que em meu túmido ardor   Lacera-me o seio   Sulcado de dor,   Quem sente? — o poeta   Que o elísio descerra;   Que vive na terra   De místico amor!     (...)   Quem vê? — o poeta   Que expira em harpejos   Aos lúgubres beijos   Da fom...

não é só isso - o que nos incomoda no cotidiano

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  " não é só isso "   é uma série para o blog :    postagens para facilitar a vida de quem tem dificuldade com intrepretação textual ; é dedicada a leituras comentadas de textos de cotidiano e outros mais literários também -- isso envolve provocações de ordem cidadã, já aviso veja abaixo os temas já tratados aqui -- clica pra conhecer e estudar   . . . . . . .  .   .    .     . árvores urgentes - tirinha de armandinho  - clica acolhimento e família: conflitos e saúde mental  - clica crise climática e as crianças - tempo de agir - clica bailairina da vida é mais do que uma questão de prova - clica medicina ou borracharia - fábula inquietante - clica  . . . . . .  .   .    .   um pouquinho mais - veja * e  vem aí a série de podcasts -- "não é só isso" !

sociedade do cansaço - a pancada na ditadura da perfomance

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  o início do livro de byung han: Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. (...)  O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo ou entre próprio e estranho. Mesmo a Guerra Fria seguia esse esquema imunológico. (...)  Hoje a sociedade está entrando cada vez mais numa constelação que se afasta totalmente do esquema de organização e de defesa imunológicas. Caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. A alteridade é a categoria fundamental da imunologia. Toda e qualquer reação imunológica é uma reação à alteridade. Mas hoje em dia, em lugar da alteridade entra em cena a diferença, (...) Falta à di...

livros restantes - filme entrega mulheres feitas de memória, coragem e desejo

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  ana catarina e joílton " livros restantes " ( denise fraga, marcia paraíso, 2025 ) -- filme sobre ana catarina, mulher que pretende sair do brasil, rumo a portugal, mas que decide, antes, devolver os cinco livros que sobraram na estante, justamente para aquelas pessoas que deram a ela os livros e fizeram dedicatórias!...  o cenário é florianópolis, barra da lagoa, beira de praia. ana catarina foi professora e, perto da terceira idade, engendra a ideia de sair do lugar, do país... existe um motivo importante, pesado, movendo isso, você descobre no fim. é impactante. assim como são impactantes as demais figuras femininas que gravitam em torno ana catarina, desde a mãe, a filha e até outras figuras que ela reencontra, por conta do plano de devolver livros que ganhou. as figuras masculinas são pequenas, com dificuldades por vezes insuperáveis, outras que são resolvidas depois de tempo, resignação e alguma culpa... os homens, nesse filme, são quase um estorvo, salvo joilton (mar...

mordaça - paulo cesar pinheiro e a importância da emoção

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                                                         o importante é que a nossa emoção sobreviva                           eduardo gudin, marcia e p cesar pinheiro 1975        MORDAÇA  Tudo o que mais nos uniu separou  Tudo o que tudo exigiu renegou  Da mesma forma que quis recusou  O que torna essa luta impossível e passiva  O mesmo alento que nos conduziu debandou  Tudo o que tudo assumiu desandou  Tudo que se construiu desabou  O que faz invencível a ação negativa  É provável que o tempo faça a ilusão recuar  Pois tudo é instável e irregular  E de repente o furor volta  O interior todo se revolta  E faz nossa força se agigantar  Mas só se a vida fluir sem se opor  Mas só se o temp...

a paixão segundo g.h. - leitura afetiva de um livro áspero

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  romance -- vou chamá-lo assim -- de clarice lispector , 1964 narrado em primeira pessoa, voz feminina. já aviso: "a paixão segundo gh" não é, livro pra consumo, é pra companhia. então, segura na mão dela e segue. logo no espaço da dedicatória, lemos:              _A possíveis leitores_ Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. (...) Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. (...)           [ A paixão segundo GH, C Lispector ]  . . . . . . . .  .  .  .   . depois, vem o início que é de uma estrutura incomum: são seis travessões, antes da prmeira palavra, assim: —  —   —  —  —  —    estou procurando, estou procurando. Estou tentand...

uma mulher morta a cada 33 horas no estado de são paulo

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  notícia de fevereiro, 2026 : " Entre janeiro e dezembro, foram 266 ocorrências — em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas.  Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de casos de feminicídio desde o início da série histórica, em 2018. " cbn - feminicídio dentro do shop abc, s paulo  - l er matéria tod a  . . . . . . . . .  .  .  .   . em média, uma mulher assassinada a cada 33 horas, quase uma por dia!! olhem, no universo que me cabe, que é o da educação, não há como fugir à pergunta: escolas estão trabalhando essa questão do feminicídio? pois é... e não me refiro a uma proposta de produção de texto perdida no meio do ano letivo ou uma conversa em sala de aula sobre o tema, a partir da leitura de um texto literário. não. é preciso que todos os professores e professoras participem do barulho. uma semana de atividade, em todas as aulas, sobre combate ao feminicídio. arte, ciência, filosofia, educação física, humanidades, ...

confete sustentável ? não é só isso

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              não é só isso   _ interpretação de texto para inciantes_           portal midia ninja - Em meio a toneladas de plástico espalhadas pelas ruas após o Carnaval, uma alternativa simples e criativa surge como alternativa aos materiais usuais: o confete feito de folhas secas. A ideia é tão óbvia quanto potente. Em vez de utilizar papéis metalizados ou plásticos que demoram anos para se decompor e frequentemente acabam em bueiros, rios e consequentemente no mar, o confete sustentável reaproveita folhas já caídas das árvores. Elas são higienizadas, secas e perfuradas, transformando-se nos confetes que mantêm a leveza da folia e o melhor, sem deixar rastros de poluição! Diferente do confete tradicional, que pode conter tintas, metais pesados ou microplásticos, o confete de folhas é totalmente biodegradável. Se ficar no chão, volta para a terra. Não entope sistemas de drenagem, não ameaça animais e não sobrecarrega a ...