fecundação - gilka machado: erotismo que liberta
Fecundação
Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
[ Gilka Machado, Sublimação, 1928]
nota_
mórbido: sensibilidade extrema
[ arte plástica: textura com tratamento delicado ]
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o olhar age (“imperiosamente”); a alma quer ser corpo. o que o eu lírico diz sobre si é "forma inquieta", ou seja, pode estar em formação. o título do poema é indicativo dessa necessária união entre a poetisa (eu lírico) e aquele que a olha. o olhar do outro sobre o eu lírico é uma tortura porque causa excitação, desejo, fome de corpo e tudo o mais a partir daí.
mãos, dedos, poros, raízes, é erotismo sim, adulto. nada de sentimentalismo, mas sim uma pressão pelo encontro. a última estrofe encaminha o clímax, o orgasmo: o corpo vai se abrir em poemas. eufemismo magnífico. aqui, erotismo é criação.
a expressão "tua mão (...) é uma ave aflita" nos arremessa pra uma outra dimensão de carinho e lirismo. credo que lindo!
veja: o corpo fecundado gera literatura, ou seja, o desejo não fica apenas, no sonho, ele é fisiológico. literatura orgânica.
a tradição moral, naquela época, era a de que a mulher era musa, um símbolo... aqui, gilka chuta o pau da barraca e crava o organismo e as essências nessa relação com o amar e o querer! um arraso essa gilka!
repara: quando a gente olha os olhos do outro, o que vemos? nosso reflexo. vemos um pouco de nós mesmos. isso poder ajudar a entender mais a última estrofe. se é que precisa analisar.
escreva no comentário o que achou desse poema de uma mulher, na década de 1920.
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