navio fantasma e o amor à deriva - paulo cesar pinheiro
NAVIO FANTASMA
[ Francis Hime & P C Pinheiro ]
Os dias ainda suporto
Às noites é que eu me condeno
De madrugada eu acordo
Sangrando canções de veneno.
O sol dos teus olhos me mata
E a lua dos meus te apavora
Derrama-se o ouro na prata
Inventa-se o sangue da aurora.
Marés de saudade já cedo
Batendo nas praias vazias
E o meu coração nos rochedos
Morrendo em marés de agonia.
E assim são as águas da vida
E o mar é um mistério que pasma
Tu és a cidade perdida
E eu sou o navio fantasma.
[ Francis, 1980, Som livre ]
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a canção encena um amor em desencontro radical: duas pessoas que se afetam, mas não se encontram no mesmo tempo emocional. ele vive a dor, a saudade, a vigília noturna; ela aparece como luz que mata
o eu lírico está condenado a vagar: carrega canções envenenadas, bate em rochedos de memória, vive de marés de agonia.
pergunta: por que é à noite que o poeta se condena?
[ sugestão de resposta ao final ]
olhe, a sequência "dia", "noite" e "madrugada", na primeira estrofe, dá conta de que o eu lírico está só, mesmo que haja areferência à segunda pessoa, no verso 5, "o sol dos teus olhos..." -- o poeta sofre de saudade.
repara que os dois se ferem mutuamente, mas de modos diferentes: ela é luz que cega; ele é sombra que assusta.
aqui, o amor não é um porto: é mar aberto, mistério, risco.
ela é a cidade perdida, ou seja, lugar difícil de se alcançar, talvez nem exista... e ele um navio fantasma, ou seja navega sem um destino certo. ele está perdido.
a canção transforma a experiência amorosa em travessia sem chegada.
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sugestão de resposta para "por que é à noite que o poeta se condena?"
- de dia, há ruídos, trabalho, algum movimento; à noite, o silêncio ganha voz, ou seja, o poeta encontra a si próprio, pensa, elabora, lembra e a solidão o abraça. é ruim, juro.
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