sedução - adélia prado - a poesia que envolve

 

    não é só isso  
 _ajudar com interpretação de texto_



      S E D U Ç Ã O  _  Adélia Prado

 A poesia me pega com sua roda dentada,  me força a escutar imóvel  o seu discurso esdrúxulo.  Me abraça detrás do muro, levanta  a saia pra eu ver, amorosa e doida.  Acontece a má coisa, eu lhe digo,  também sou filho de Deus,  me deixa desesperar.  Ela responde passando  a língua quente em meu pescoço,  fala pau pra me acalmar,  fala pedra, geometria,  se descuida e fica meiga,  aproveito pra me safar.  Eu corro ela corre mais,  eu grito ela grita mais,  sete demônios mais forte.  Me pega a ponta do pé  e vem até na cabeça,  fazendo sulcos profundos.  É de ferro a roda dentada dela.

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perguntas para inciar a interperatação de texto:
1. o que acontece depois que a poesia pega o eu lírico? 
2. o que são estes "sulcos" ? 

vale o lembrete: procure escrever, em poucas linhas, o que o texto diz, do que ele trata, depois volte aqui para ler o que fiz abaixo.

veja: a poesia pega o eu lírico, então ela está personificada. há uma disputa aqui, uma espécie de luta e violência, por parte da poesia que abraça, bota língua no outro, fala com intenção de seduzir e se aproveitar do eu lírico. é rude a batalha. é erótica essa relação. mas não é só isso. e os sulcos da roda dentada? o que seriam? 

esse sulco está no lugar da marca subjetiva, trauma mesmo, que a literatrua deixa neste eu lírico. logo, "sulco" é metáfora. mas não é só isso. o título joga essa relação para um lado supostamente menos violento: a sedução, a prévia da relação em si. em literatura, podemos chamar de esboço. 

na lata_
 se você viu apenas o erotismo, leu pouco. é do fazer literatura que o texto trata
erotismo, aqui, é ferramenta, não o fim em si, não é uma narrativa sobre relação violenta de "a" e "b". não é só isso. a poesia -- segundo os versos -- envolve, enlaça e vai além das possíveis resistências de quem faz literatura (o eu lírico). poesia não teme nada. é amoral. 

como viu, não dá pra sair ileso desse poema.
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