estrela da terra _ paulo cesar pinheiro_ e a chance da transformação coletiva

                   
                                paulo c pinheiro
 

      ESTRELA DA TERRA
    Paulo C Pinheiro e Dori Caymni

 Por mais que haja dor e agonia
 Por mais que haja treva sombria
 Existe uma luz que é meu guia
 Fincada no azul da amplidão
 É o claro da estrela do dia
 Sobre a terra da promissão.

 Por mais que a canção faça alarde
 Por mais que o cristão se acovarde
 Existe uma chama que arde
 E que não se apaga mais não
 É o brilho da estrela da tarde
 Na boina do meu capitão.
 E a gente
 Rebenta do peito a corrente
 Com a ponta da lâmina ardente
 Da estrela na palma da mão.
 Por mais que a paixão não se afoite
 Por mais que minh'alma se amoite
 Existe um clarão que é um açoite
 Mais forte e maior que a paixão
 É o raio da estrela do noite
 Cravada no meu coração.

 E a gente
 Já prepara o chão pra semente
 Pra vinda da estrela cadente
 Que vai florescer no sertão.
 Igual toda lenda se encerra
 Virá um cavaleiro de guerra
 Cantando no alto da serra
 Montado no seu alazão
 Trazendo a estrela da terra
 Sinal de uma nova estação

   [ álbum: "
dois em um", dori caymmi 1980]

canção que manifesta uma expectativa de revolução. a estrela -- esperança e energia -- está na manhã de céu azul, está no período da terde e à noite. 

plantar a semente é preparar nova geração para um dia poder viver uma nova estação, ou seja, vida melhor. trata-se de mais um trabalho lançado na época de ditadura militar (1964-85).
existe a treva, existe medo e correntes. o que significam? significam censura, violência sobre aqueles que querem democracia e o medo diário. necessário preparar o chão pra semente, ou seja, conhecer o presente, entender o passado, saber do nosso lugar de fala, nosso lugar social e se preparar para luta contra aqueles que, de tempos em tempos, surgem para calar não só a arte como as vidas dos menos favorecidos.

na canção, o coletivo prepara a terra. então, surge um cavaleiro, heroico, para trazer salvação. um "cavaleiro de guerra". vale lembrar que luís carlos prestes, o comunista da "coluna prestes" (anos 1920), tem o apelido de "cavaleiro da esperança". não se trata, aqui, de campanha eleitoral para o capitão prestes -- que estava vivo em 1980 -- mas um chamado à união e ao ideal de resistência necessários frente ao tempo sombrio da ditadura militar (1964-85). pode ser um apelo romântico essa coisa de um cavaleiro, alto da serra, cantando? pode. era um jeito de driblar censura, possivelmente. mas a palavra "capitão" está lá. 
boa parte de nossa elite sempre quis que a pobreza continuasse miserável para não precisar discutir distribuição de renda. é sórdido. por isso, união e estudo. isso aqui, não é só literatura.

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