odisseia no cinema ou "eu fiz o que pude"

 


waterhouse 1891_ulisses e as sereias

eu vi "a odisseia" (assim, com artigo), filme, 2026, sobre a obra épica de homero, "odisseia" (sem artigo). vale a pena. o paganismo histórico desses gregos de três, quatro mil anos atrás é impactante quando se compara com o que temos hoje, aqui: cotidiano regido pela influência cristã. o perfil de humanidade ali nas tramas de odisseu em alguns momentos choca -- mesmo que tudo possa ser ficção -- , e em outros, alivia até angústias existenciais. como se sabe, depois de décadas de problemas, ulisses (odisseu) precisa voltar para casa, em ítaca.
uma das agruras por que passa ulisses é navegar próximo às sereias e manter-se vivo, assim como sua tripulação. o canto das sereias é irresistível. quem ouve, se entrega e morre. a saída era encher os ouvidos dos navegantes de cera de abelha. no caso de ulisses, ele quis viver a experiência de ouvir o canto das sereias e resistir. por isso, é amarrado ao mastro do navio. foi sofrido, mas a embarcação seguiu.
theodor adorno, pensador alemão, publicou "dialética do esclarecimento" e, lá, diz que ulisses (odisseu) seria o primeiro burguês da história porque ele se permite ouvir o canto delicioso das sereias enquanto o proletariado rema de ouvido tapado. realmente, "odisseia" é obra gigante e aponta pra quase tudo que se tem, hoje, em termos de narrativa de aprendizado, dinâmica de poder e o amor.

reparem que nessa aventura as figuras femininas são sempre um problemão: às vezes bruxa má, sereia assassina, vingativa... e isso se estende à mitologia católica. nessas narrativas, a mulher sempre se ferra muito. 
voltando. pra muita gente, sereia seria uma mistura de mulher com peixe. errado. nunca foi. no original de homero, são aves com cabeça de mulher, assim como se vê, na tela acima, de john waterhouse. ora, se elas cantam, só pode ser ave ou alguém aí já curtiu coral de sardinhas?

o canto das sereias fazia com que humanos perdessem a razão, inebriados pela chance do conhecimento pleno e prazer eterno. a pergunta é : por que, então, resistir? ulisses resiste porque, do contrário, perderia humanidade. um ser humano é finito. conhecimento e prazeres infinitos tornariam o tal humano uma coisa inumana e, claro, morta.
ulisses queria voltar pra casa e, pra isso, precisava de tripulação. manter todo mundo vivo era chance de seguir sendo ulisses, aquele que enfrenta deuses. esse personagem é ferido, quase morre, mas quer voltar pra sua penélope. no filme, algumas vezes é clara sua insatisfação com leis mitológicas e ele se vê tendo de justificar-se, afirmando que fazia o que precisasse para manter-se vivo e cumprindo objetivos. traduzi essa postura assim: 
"fiz o que deu"

nessa "odisseia", ulisses (odisseu) enfrenta uma gama de seres fabulosos (gigantes, sereias, bruxa, gente morta), às vezes ganha, às vezes empata. a tomada de consciência sobre os horrores que ele mesmo ajudou a criar, desde a guerra de troia, vai humanizando mais a figura de ulisses o que, na mesma proporção, diminui poder dos deuses. vou repetir: quanto mais humano, quanto mais admitimos nossas limitações, menores ficam os deuses. mas acho que ninguém tá preparado pra essa conversa.
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sereia em terracota_ 300 a.C.
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mais sobre humanos,  mitos e afins
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Comentários

  1. Olá tudo bem? Acabei de ver um vídeo em seu canal do YouTube falando sobre o Mestre Vitalino da Lélia Coelho Frota, será que o senhor teria interesse em vende-lo? Obrigado!

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  2. olá! pois é, uma relíquia.... eu adquiri por um sebo virtual... tem assinatura de uma pessoa, em 1989.... por agora, não penso em vendê-lo, agradeço demais seu interesse ! ... arriscou o site "estante virtual" ?...

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