electra - sophia m breyner - o grito que é a insônia das coisas

 

[sophia de m bryener andresen 1919-2004 ]

    ELECTRA

 O rumor do estio atormenta a solidão de Electra  O sol espetou a sua lança nas planícies sem água  Ela solta os seus cabelos como um pranto  E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos  Onde em colunas verticais o calor treme  O seu grito atravessa o canto das cigarras  E perturba no céu o silêncio de bronze  Das águias que devagar cruzam seu voo  O seu grito persegue a matilha das fúrias  Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros  Ou nos cantos esquecidos do palácio  Porque o grito de Electra é a insônia das coisas   A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes  E a invocação exposta   Na claridade frontal do exterior  No duro sol dos pátios  Para que a justiça dos deuses seja convocada

  [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]

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      importante_
  electra é filha de agamêmnon e clitemnestra.

  a tragédia começa assim: agamêmnon sacrifica ifigênia, a própria filha, para poder partir para a guerra de troia. clitemnestra nunca perdoa. quando agamêmnon volta da guerra, clitemnestra -- mãe de electra -- o assassina, junto com seu amante egisto. electra assiste a tudo — ou vive sob o peso disso.
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uma paráfrase: o calor a solidão de electra. o sol domina paisagem seca. electra solta os cabelos, gesto de luto e desespero. seu grito se espalha pelos pátios do palácio, atravessa o som das cigarras e rompe até o silêncio do céu. o grito não se limita ao espaço humano: persegue fúrias, nada consegue abafá-lo. o tal grito impede o descanso das coisas, acorda sonhos, remorsos e crimes escondidos. é a acusação lançada à luz do dia, sob o sol duro dos pátios, para que a justiça dos deuses seja chamada a agir.

vejam, a ausência -- tema recorrente no livro "geografia" -- não é passiva: exige resposta, uma vez que dá insônia às coisas e não permite que o universo ali se acalme: é preciso justiça -- ou algo similar.
repara: não há lágrima, tampouco sentimentalismo... é o grito exposto, pois é o modo trágico clássico.
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faíscas :  por que o grito é insônia? por que o silêncio das aves é de bronze?
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