1975 : lembro quase nada

 



entre 1973 e 74, passei a ir sozinho à escola. eu estava pelos 9 anos de idade e isso trazia certa noção de liberdade que eu não conseguia medir. a questão nem envolvia chance de fazer o que quisesse, eu não tinha essa noção de poder. o lance era estar sozinho, no calor eterno da cidade de ribeirão preto, isso fascinava. ir e vir por conta própria. a distância para escola era de um quilômetro, desde a rua altino arantes, até o grupo escolar guimarães junior, em ribeirão preto. como algumas vezes eu ia ziguezagueando, entre uma calçada e outra --  pra fugir de cães de rua --  o percurso percorrido ficava maior.  estar sem a presença austera da mãe era sim um tipo de libertação. era sonhador. eu não cabia no que eu era. 
ir sozinho pra escola não era difícil: praticamente descer a rua barão do amazonas até a rua lafayette. pronto. eu ia e voltava sozinho, algumas vezes. era realmente livre? não sei. é tarde pra saber.

pelos idos de 1975, ouvia raul seixas no rádio, eu não gostava do ritmo, das letras... tinha aquela música da sopa, uma chateação para uma criança de 11 anos mal completados. era a ditadura militar e a mosca na sopa seria o tal poeta etc etc. mas não tinha como entender isso. peguei birra do raul. anos e anos depois, soube reconhecer a importância do roqueiro com sotaque que não era o meu. achava raul engraçado. só isso.
queria um grande acontecimento pra lembrar de 1975. não consigo. estava na quarta série do então grupo escolar. hoje, seria o fundamental 1. passei a gostar de música de discoteca, por causa donna summer,  e nile rogers. era enlatado norteamericano demais, eu sei. na tv, o programa do si
lvio santos, desenho da pantera cor de rosa, propaganda de shampoo colorama e pasta de dente kolynos. a tv era toda preto e branco, as poucas cenas coloridas, na vida da época, existiam no cinema que, diga-se, quase nunca ia. mesmo assim, vibrava vendo futebol. 
tinha poucos amigos, lembro quase nenhum nome... em casa, a relação austera fazia prevalecer certo silêncio. nas refeições não se fazia barulho. praticamente todo o dia a gente falava pouco. brincava na rua, já não era mais altino arantes e sim a tereza tossani livrini, bairro bem distante da região central, chamado ironicamente "presidente médici". em 1976, já estávamos em outro endereço, rua prudente de moraes, nome de outro presidente, desta vez um civil. cidade era ainda ribeirão preto, número 1673. continuei indo sozinho pra escola.

carente afetivo, me apaixonava por qualquer coleguinha que me desse um olhar e meio sorriso. ficava nisso, o mundo real. fora dele, era puro suco de platonismo urbano. sonhava, imaginava grandes cenas de caminhada na rua ensolarada, mão dada ou só andar do lado, já tava bom. nos sonhos era como bebê na piscina de bolinha. no chão da realidade, acreditava que com 12 ou 13 anos, acreditava que precisava ser mais adulto para qualquer movimento nessa linha de amores e quereres. e precisava mesmo, mas só não estava valendo era morar na ignorância completa do tema, na adolescência. ninguém pra orientar ou partilhar dúvidas. nada. não por falta de moças, mas eu mesmo não cabia no que eu era. 

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