velho arvoredo - paulo cesar pinheiro - entre a resistência e o abandono
VELHO ARVOREDO
Paulo Cesar Pinheiro
Eu te esqueci muito cedo
Pelo tempo que passou
Tal como um velho arvoredo
Que o vento não derrubou
Tronco mudado em rochedo
Pedra transformada em flor
E eu fui ficando sozinho no pó do caminho
Me desenganando, sofrendo e chorando
E mantendo em segredo
Essa minha ilusão
Que me escapou de entre os dedos
Pra não sei que outras mãos
E eu me tornei o arremedo
De tudo aquilo que eu não sou
Mas eu jamais retrocedo
O que passou passou
Já superei, mas só eu sei
O mesmo jamais eu serei
Feito a madeira o machado inclinando
Eu por fora estou cicatrizando
E por dentro sangrando, afastado do medo
Mas sozinho, tal como o velho arvoredo
Que não serve ao tempo nem ao lenhador
E o vento abandonou
. . . . . . . . . . .
"velho arvoredo" é metáfora para o eu lírico que perdeu pessoa amada. algo entre a resistência e o abandono. ele mesmo se compara ao arvoredo "tal como um velho arvoredo". aqui, um relato pessoal lírico, denso, depressivo até. um dado da tristeza parece ser o segredo guardado pelo poeta, uma vez que o objeto do desejo foi para outras mãos... "que me escapou entre os dedos", diz o texto. o poeta se responsabiliza pela separação. logo de início, ele interage com a pessoa amada, se dirige a ela: "eu te esqueci muito cedo". é a primeira dica de que ele -- poeta -- chama pra si a responsabilidade da separação, tornando a ideia de culpa bem clara. não foi o destino ou só vontade da pessoa amada: foi dele a responsabilidade da perda. o arvoredo ficou envelhecido, desinteressante.
duas expressões que soam contraditórias: "o que passou, passou"; "já superei" e "estou cicatrizando". como assim? explicando: logo depois de "superei" vem um "mas", ou seja, uma ressalva. poeta continua sofrendo, sangrando por dentro. é terrível. por fora, uma casca, uma aparência de estabilidade, mesmo envelhecida. por dentro, a dor. então, não superou. então, não cicatrizou. está sozinho, árvore endurecida, nem o lenhador se interessa. nem o vento. é uma espécie de fóssil. lembra o romantismo. é triste. é literatura.
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