o africano e o poeta - narcisa amália e a justiça social

 


     O AFRICANO E O POETA   _ Nebulosas_
                                               
Narcisa Amália

  No canto tristonho
  Do pobre cativo
  Que elevo furtivo,
  Da lua ao clarão;
  Na lágrima ardente
  Que escalda-me o rosto,
  De imenso desgosto
  Silente expressão;

  Quem pensa? — o poeta
  Que os carmes sentidos
  Concerta aos gemidos
  De seu coração.

  — Deixei bem criança
  Meu pátrio valado,
  Meu ninho embalado
  da Líbia no ardor:
  Mas esta saudade
  Que em meu túmido ardor
  Lacera-me o seio
  Sulcado de dor,

  Quem sente? — o poeta
  Que o elísio descerra;
  Que vive na terra
  De místico amor!
    (...)
  Quem vê? — o poeta
  Que expira em harpejos
  Aos lúgubres beijos
  Da fome cruel!

  — Depois o castigo
  Cruento, maldito,
  Caiu no proscrito
  Que o simum crestou;
  Coberto de chagas,
  Sem lar, sem amigos,
  Só tendo inimigos...
  Quem há como eu sou?!...

  — Quem há?... o poeta
  Que a chama divina
  Que o orbe ilumina
  Na fronte encerrou!
   (...)

  — Meu Deus! ao prec ito
  Sem crenças na vida,
  Sem pátria queridam
  Só resta tombar!
  Mas... quem uma prece
  No campo do escravo
  Que outrora foi bravo
 Triste há de rezar?!...

  — Quem há-de?... o poeta
     (...)

         notas_

   simun 
vento muito quente e seco do deserto do saara, capaz de sufocar e queimar a vegetação.

  arpejo
musical: execução das notas de um acorde ; na poesia, sugere som delicado ou melancólico.

  carmes
Vermelhos intensos; cor de sangue ou de rubor forte. No poema, indica emoções ardentes ou passionais.

   proscrito
banido, excluído ou perseguido

  valado
lugar portegido; lugar de origem; propriedade rural cercada de valas

   paços sidérios
o espaço celestial (“sidério” = relativo às estrelas).

   elísio 
lugar de felicidade; morada de heróis
 . . . . . .  .  .  .  .   .

a voz predominante é a do africano. estamos no século 19. saiba que neste livro "nebulosas" (1872), onde se insere o poema acima, há uma homenagem a castro alves, romântico, que também destacou-se por escrever a respeito das dores dos escravizados, no brasil.
repara que enquanto a voz expõe saudade e dor, o poeta vive de sentimentalismos, de "místico amor", envolvido em beijos, ou seja, o poeta mora no sonho, no romantismo raiz. quem sofre é o africano; enquanto ao poeta cabe fazer versos, transformar em literatura. é uma crítica!

dá pra ser romântico -- como foi castro alves -- mas segundo o texto, não pode se esquecer do lugar de fala de quem é escritor(a), neste século 19: cantar as injustiças. lembrar que neste mesmo livro, há o contundente "25 de março", também contendo denúncia social. dá-lhe, narcisa! porreta.

 . . . . . . . .  .  .  .  .   .

lê aqui "25 de março" - narcisa - clica

saiba mas sobre "nebulosas" _




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