mordaça - paulo cesar pinheiro e a importância da emoção
o importante é que a nossa emoção sobreviva
eduardo gudin, marcia e p cesar pinheiro 1975
MORDAÇA
Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo o que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo o que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa
É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar
[ Paulo Cesar Pinheiro & Eduardo Gudin, 1975 ]
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pretensa paráfrase: os laços que uniam, separaram pessoas; perdeu-se um tanto a confiança no outro; exigências foram negadas e a força-guia se dispersou. o silêncio e a falta de ação se destacaram. esperança: o tempo pode enfraquecer a mentira, já que nada é estável. a indignação pode voltar, provocar uma revolta interior e fazer crescer a força coletiva. mas isso só será possível se a vida puder seguir sem bloqueios e se a emoção resistir. a felicidade pode conter a dor antiga, porque resistir ao que parece inevitável é o que fortalece o coração e dá sentido à vida.
atenção : "ilusão" pode ser entendido como a propaganda oficial da ditadura sobre um país gigante e bonito, então é -- aqui -- uma crítica pois, o tempo faria essa ilusão diminuir e até acabar, uma vez que a realidade, ali, era a repressão.
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o importante é que a nossa emoção sobreviva. este verso dá nome ao disco, um vinil de 1975. aqui, é símbolo de resistência sim, em tempos de ditadura militar (1964-85). a mordaça que sempre foi marca da repressão, é usada, na letra, para cancelar a mesma repressão: a felicidade vai amordaçar a dor, ou seja, a emoção, a felicidade darão força para resisitir e superar o momento ruim, em nosso país. nisso, há esperança de que de repente o furor volte e uma revolta se faça para libertar a sociedade de suas torturas e repressões. não é só isso, veja: voltando ao verso:
"É provável que o tempo faça a ilusão recuar"
pode-se entender um outro lado da moeda que é a possibilidade dela -- a ilusão de melhora -- estar recuando com o tempo, quanto mais durar a repressão. daí, mais um motivo para agir, resistir, combater. a vida presta.
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faísca : conhecido o contexto histórico brasileiro, qual seria essa "dor", na última estrofe?

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