descobrimento - sophia bryener - visão europeia da chegada de cabral
comentário sobre texto polêmico de sophia de mello bryener
DESCOBRIMENTO
Um oceano de músculos verdes Um ídolo de muitos braços como um polvo Caos incorruptível que irrompe E tumulto ordenado Bailarino contorcido Em redor dos navios esticados. Atravessamos fileiras de cavalos Que sacudiam as crinas nos alísios. O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo Para mostrar as praias E um povo De homens recém-criados ainda cor de barro Ainda nus ainda deslumbrados.
[Sophia de M Bryener Andresen, Geografia, 1967 ]
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poema de caráter descritivo e emotivo a respeito da chegada dos invasores portugueses, no brasil. sim, foi invasão seguida de genocídio. não foi "descobrimento". enfim. o termo "ainda" antes do "nus" reforça a ideia de que estariam despidos até aquele momento, depois iriam ser vestidos. iriam ser aculturados etc etc. terrível. bem eurocentrista essa visão.
olhem, os indígenas são o que são, independente da vestimenta. a visão, aqui, é perfumada demais. um tanto cristã, pela citação do barro. o tom da pele, mais escuro do que a dos portugueses, permitia essa licença católica que dá conta de que o brasil seria uma espécie de paraíso ou qualquer clichê similar. ficou ruim mesmo. por outro lado, o caos, tumulto e o bailarino contorcido poderiam trazer uma ideia de cosmogonia, ou seja, mito de criação pura e simples a partir de um caos. essa ideia de como o mundo surgiu é antiquíssima. o que o velho testamento marca não é novo, acho que isso já sabem. é uma teoria lá vinda também dos maniqueus que pegaram de outro alguém anterior. enfim. voltando. os indígenas nus e surgindo ante os portugues pode estar além de mera visão cristã, ou seja, uma ideia de cosmogonia. no livro "geografia" -- de onde saiu esta poema -- pode-se ler "ainda então" que tematiza isso que estou escrevendo. cosmogonia ancestral ou visão adâmica (cristã), o resultado é o mesmo. só sei que ficou desnecessária essa visão perfumada sobre a chegada dos europeus no brasil.
mário de andrade, no mesmo século 20, escreveu "descobrimento", uma visão digamos, moderna, mais digna do que esta aqui acima. é isso.
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em 1944 publicou o primeiro livro, numa edição de 300 exemplares. (...) Ao longo de 60 anos, a sua obra, agraciada com numerosos prêmios, abrangeu a poesia, a ficção,o teatro, o ensaio, as traduções e a organização de antologias literárias. (...) Quanto ao poeta, recomenda-se que, como João Cabral de Melo Neto ou qualquer outro "poeta clássico", sempre recupere a memória da morte, atinja por vezes a alucinação feroz e conheça, como a sua mão esquerda, a companhia da ausência, do conflito e do desastre (...)
[ feminae - dicionário contemporâneo - joão esteves & zilia castro ]

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