descobrimento - sophia bryener - visão europeia da chegada de cabral

 


[ sophia m b andresen 1919 - 2004 ]

comentário sobre texto polêmico de sophia de mello bryener

    DESCOBRIMENTO

 Um oceano de músculos verdes  Um ídolo de muitos braços como um polvo  Caos incorruptível que irrompe  E tumulto ordenado  Bailarino contorcido  Em redor dos navios esticados.  Atravessamos fileiras de cavalos  Que sacudiam as crinas nos alísios.  O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo  Para mostrar as praias  E um povo  De homens recém-criados ainda cor de barro  Ainda nus ainda deslumbrados.

      [Sophia de M Bryener Andresen, Geografia, 1967 ]

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poema de caráter descritivo e emotivo a respeito da chegada dos invasores portugueses, no brasil. sim, foi invasão seguida de genocídio. não foi "descobrimento". enfim. o termo "ainda" antes do "nus" reforça a ideia de que estariam despidos até aquele momento, depois iriam ser vestidos. iriam ser aculturados etc etc. terrível. bem eurocentrista essa visão.

olhem, os indígenas são o que são, independente da vestimenta. a visão, aqui, é perfumada demais. um tanto cristã, pela citação do barro. o tom da pele, mais escuro do que a dos portugueses, permitia essa licença católica que dá conta de que o brasil seria uma espécie de paraíso ou qualquer clichê similar. ficou ruim mesmo. por outro lado, o caos, tumulto e o bailarino contorcido poderiam trazer uma ideia de cosmogonia, ou seja, mito de criação pura e simples a partir de um caos. essa ideia de como o mundo surgiu é antiquíssima. o que o velho testamento marca não é novo, acho que isso já sabem. é uma teoria lá vinda também dos maniqueus que pegaram de outro alguém anterior. enfim. voltando. os indígenas nus e surgindo ante os portugues pode estar além de mera visão cristã, ou seja, uma ideia de cosmogonia. no livro "geografia" -- de onde saiu esta poema -- pode-se ler "ainda então" que tematiza isso que estou escrevendo. cosmogonia ancestral ou visão adâmica (cristã), o resultado é o mesmo. só sei que ficou desnecessária essa visão perfumada sobre a chegada dos europeus no brasil.

 mário de andrade, no mesmo século 20, escreveu "descobrimento", uma visão digamos, moderna, mais digna do que esta aqui acima. é isso.

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 saber mais_

 em 1944 publicou o primeiro livro, numa edição de 300 exemplares. (...) Ao longo de 60 anos, a sua obra, agraciada com numerosos prêmios, abrangeu a poesia, a ficção,o teatro, o ensaio, as traduções e a organização de antologias literárias.  (...) Quanto ao poeta, recomenda-se que, como João Cabral de Melo Neto ou qualquer outro "poeta clássico", sempre recupere a memória da morte, atinja por vezes a alucinação feroz e conheça, como a sua mão esquerda, a companhia da ausência, do conflito e do desastre (...)

[ feminae - dicionário contemporâneo - joão esteves & zilia castro ]

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