Postagens

Mostrando postagens com o rótulo sophia

o vazio desenhava desde sempre - sophia m breyner - comentário

Imagem
                                                                            [ sophia de mello breyner andresen 1919 - 2004 ]         O VAZIO DESENHAVA DESDE SEMPRE    O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto     Todas as coisas serviam para nos ensinar      A ardente perfeição da tua ausência        [Sophia M B Andresen, Geografia, 1967 ]     . . . . . . .  .  .  .   . poema lírico onde a tristeza é limpa, quase arquitetônica.  bem joão cabral mesmo. aqui, a ausência dói, mas é plena. intensa, pois  houve aprendizado. e este é tema recorrente, no livro: a ausência; o vazio. esses elementos (ausência, vazio e afins) têm vivacidade. são ativos no universo desses...

túmulo de lorca é poesia manifesto - sophia de mello breyner

Imagem
  federico garcía lorca 1898 - 1936 texto comentado de sophia m breyner:       TÚMULO DE LORCA   Em ti choramos os outros mortos todos  Os que foram fuzilados em vigílias sem data  Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias  Tão ignorados que nem sequer podemos  Perguntar por eles imaginar seu rosto  Choramos sem consolação aqueles que sucumbem  Entre os cornos da raiva sob o peso da força  Não podemos aceitar. O teu sangue não seca  Não repousamos em paz na tua morte  A hora da tua morte continua próxima e veemente  E a terra onde abriram a tua sepultura  É semelhante à ferida que não fecha  O teu sangue não encontrou nem foz nem saída  De Norte a Sul de Leste a Oeste  Estamos vivendo afogados no teu sangue  A lisa cal de cada muro branco  Escreve que tu foste assassinado  Não podemos aceitar. O processo não cessa  Pois nem tu foste poupado à patada da besta ...

assim o amor - sophia de mello breyner busca ser racional com o sentimento

Imagem
                                                                           sophia de mello breyner andresen (1919-2004) uma resenha do poema de sophia de mello breyner: "assim o amor"       ASSIM O AMOR   Assim o amor   Espantado meu olhar com teus cabelos   Espantado meu olhar com teus cavalos   E grandes praias fluidas avenidas   Tardes que oscilam demoradas   E um confuso rumor de obscuras vidas   E o tempo sentado no limiar dos campos   Com seu fuso sua faca e seus novelos   Em vão busquei eterna luz precisa     [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]   . . . . . . . .  .  .  .   . eu lírico contempla o ser amado com assombro: os cabelos, a força quase selvagem (“cavalos”), paisagens abe...

electra - sophia m breyner - o grito é a insônia das coisas

Imagem
  [sophia de m bryener andresen 1919-2004  ]     ELECTRA  O rumor do estio atormenta a solidão de Electra  O sol espetou a sua lança nas planícies sem água  Ela solta os seus cabelos como um pranto  E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos  Onde em colunas verticais o calor treme  O seu grito atravessa o canto das cigarras  E perturba no céu o silêncio de bronze  Das águias que devagar cruzam seu voo  O seu grito persegue a matilha das fúrias  Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros  Ou nos cantos esquecidos do palácio  Porque o grito de Electra é a insônia das coisas    A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes  E a invocação exposta    Na claridade frontal do exterior  No duro sol dos pátios  Para que a justiça dos deuses seja convocada   [Sophia de M Breyner Andresen, Geografia, 1967 ]    . . . . . . .  ...

ali, então - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
  [ sophia  1919 - 2004 ]        ALI, ENTÃO  Ali, então em pleno mundo antigo  À sombra do cipreste e da videira  Olhando o longo tremular do mar  Num silêncio de luas e de trigo  (Como se a morte a dor o tempo e a sorte   Não nos tivessem nunca acontecido)  Em nossas mãos a pausa há-de poisar  Como o luar que poisa nas videiras  E em frente ao longo tremular do mar  Num perfume de vinho e de roseiras  A sombra da videira há-de poisar  Em nossas mãos e havemos de habitar  O silêncio das luas e do trigo  No instante ameaçado e prometido  E os poemas serão o próprio ar  — Canto do ser inteiro e reunido —  Tudo será tão próximo do mar  Como o primeiro dia conhecido      [ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ]    . . . . .  .  .  . texto metalinguístico, traz um caráter de reconstrução, nos versos. vejam, há a necessidade de um...

um poeta clássico - sophia de mello breyner andresen - comentário

Imagem
  [ sophia 1919 - 2004 ]     UM POETA CLÁSSICO   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo:   Prumo esteio coluna   Combate esculpido nas métopas do templo   Una e múltipla   Cada encontro a recomeça:   Agudo gume quando a música ressoa   Venenosa rosa do junho mais antigo   Um poeta clássico   Fará da ausência uma parte do seu jogo   Nem integrada nem assumida   Apenas companheira   Segunda mão poisada sobre a mesa   Mão esquerda   Companheira serena   Das coisas serenas:   Parede livro fruto   E fogosa condutora dos desastres   Que nos esperam em seus pátios lisos         [ S ophia de Mello Breyner - G eogr a fi a 1967 ]    . . . . .  .  .  .              n ota _     métopa -   espaço existente entre dois tríglifos de um friso dórico (arquitetura)   ...

de um amor morto - sophia de mello breyner - o amor que a eternidade ignora

Imagem
  [ sophia breyner 1919 - 2004 ]       De um amor morto    De um amor morto fica   Um pesado tempo quotidiano   Onde os gestos se esbarram   Ao longo do ano   De um amor morto não fica   Nenhuma memória   O passado se rende   O presente o devora   E os navios do tempo   Agudos e lentos   O levam embora   Pois um amor morto não deixa   Em nós seu retrato   De infinita demora   É apenas um facto   Que a eternidade ignora        [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]   . . . . .  .  .  . o amor morto incomoda. soa como uma relação morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria que algo ainda lhe pertencesse. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio e o peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem a me...

caminho - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
             CAMINHO   Na marcha pelo deserto eu sabia   Que alguns morreriam   Mas pensava sob o céu redondo   — Onde   O limite do meu amor da minha força?   E eis que morro antes do próximo oásis   Com a garganta seca e o peso   Ilimitado do sol sobre os meus ombros   Eis que morro cega de brancura   Cansada demais para avistar miragens   Eu sabia   Que alguém   Antes do próximo oásis morreria      [ S ophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ]    . . . . . .  .  .  .   . aqui, o eu lírico está enfraquecido pela caminhada, pelo viver. curzar um deserto é senso comum de sofrimentos. sempre há os que não conseguem e sempre há os que morrem. uma pergunta ecoa, no texto: onde o limite do meu amor...? -- depois, segue-se o sofrimento e a morte. o eu poético está seguindo pelo deserto com outras pessoas. isso pesa. a questão é: por qu...

aparição - sophia de mello bryener andresen - comentário

Imagem
                                             Aparição   Devagar devagar um homem morre   Escura no jardim a noite se abre   A noite com miríades de estrelas   Cintilantes límpidas sem mácula   Veloz veloz o sangue foge   Já não ouve cantar o moribundo   Sua interior exaltação antiga   Uma ferida no seu flanco o mata   Somente em sua frente vê paredes   Paredes onde o branco se retrata   Seus olhos devagar ficam de vidro   Uma ferida no seu flanco o mata     Já não tem esplendor nem tem beleza   Já não é semelhante ao sol e à lua   Seu corpo já não lembra uma coluna   É feito de suor o seu vestido   A sua face é dor e morte crua   E devagar devagar o rosto surge   O rosto onde outro rosto se retrata   O rosto desde sempre pressentido   Por aquele que ao viver o ...

a solidão - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
                                                                  [ cristo de la expiración - francisco gijón  séc 17 ]            6.  A solidão    A noite abre os seus ângulos de lua    E em todas as paredes te procuro    A noite ergue as suas esquinas azuis    E em todas as esquinas te procuro    A noite abre as suas praças solitárias    E em todas as solidões eu te procuro    Ao longo do rio a noite acende as suas luzes    Roxas verdes azuis.    Eu te procuro.      [ O cristo cigano,  1961 , Sophia de M B Andresen ]    . . . . . .  .  .  .   .   .    . este é o sexto poema de "o cristo cigano".  a ...

trevas - sophia de mello bryener - comentário

Imagem
                                                [ francisco gijón, cristo em agonia, séc 17 ]             7.  Trevas         O que foi antigamente manhã limpa        Sereno amor das coisas e da vida        É hoje busca desesperada busca        De um corpo cuja face me é oculta.                 [ O cristo cigano,  1961 , Sophia de M B Andresen ]      . . . . . .  .  .  .   .   .    . este é o sétimo poema de "o cristo cigano".   aqui, pode ser a voz do escultor -- que aparece no poema 1 -- buscando uma imagem de um cristo em agonia para construir sua estátua.  agora, se liga nessa história :   sophia breyner encontrou-se com joão c...

o escultor e a tarde - sophia m breyner - comentário

Imagem
        1 . O escultor e a tarde   No meio da tarde   Um homem caminha:   Tudo em suas mãos   Se multiplica e brilha.   O tempo onde ele mora   É completo e denso   Semelhante ao fruto   Interiormente aceso.   No meio da tarde   O escultor caminha:   Por trás de uma porta   Que se abre sozinha   O destino espera.   E depois a porta   Se fecha gemendo   Sobre a Primavera.         [ O cristo cigano,  1961 , Sophia de M B Andresen ] este é o poema número 1 de "o  cristo cigano ". importante :  sophia breyner encontrou-se com joão cabral de melo neto, em sevilha, espanha, onde vivia o brasileiro que era também diplomata. lá, ela ouviu a lenda de que o escultor espanhol francisco gijón, no final do século 17, recebera uma encomenda de um cristo em agonia. para este fim, o tal artista buscou uma cena que pudesse ver alguém morrendo para conseguir insp...

o encontro - sophia de mello breyner - comentário

Imagem
             O encontro       Redonda era a tarde       Sossegada e lisa       Na margem do rio       Alguém se despia.       Sozinho o cigano       Sozinho na tarde       Na margem do rio       Seu corpo surgia       Brilhante da água       Semelhante à lua       Que se vê de dia       Semelhante à lua       E semelhante ao brilho       De uma faca nua.       Redonda era a tarde.         [ O cristo cigano, 1961 , Sophia de M B Andresen ] poema número 4 do livro "o cristo cigano". o texto parece descrever um encontro entre a figura divina e a água do rio, como num batismo tradicional, à moda de joão batista.  contudo, sabemos que se trata do cigano "cachorro", cuja lenda -- em sevilha -- inspirou a poetisa...