de um amor morto - sophia de mello breyner - comentário
[ sophia breyner 1919 - 2004 ] De um amor morto De um amor morto fica Um pesado tempo quotidiano Onde os gestos se esbarram Ao longo do ano De um amor morto não fica Nenhuma memória O passado se rende O presente o devora E os navios do tempo Agudos e lentos O levam embora Pois um amor morto não deixa Em nós seu retrato De infinita demora É apenas um facto Que a eternidade ignora [ Sophia de Mello Breyner Andresen - Geografia 1967 ] . . . . . . . . o amor morto incomoda. soa como uma relação terminada, morta, mas não esquecida ("o passado se rende"). parece que o eu lírico gostaria de que algo ficasse consigo. mas o tempo levou embora esse algo. resta o peso do vazio. peso da incompletude. o amor morto passou a ser um fato, apenas. por vezes, nem isso, pois -- segundo o que se lê -- nem...