atelier do escultor do meu tempo - sophia de mello breyner e a arte exilada
ATELIER DO ESCULTOR DO MEU TEMPO
Uma nudez geométrica
Implanta nos espaços sucessivos
O vazio propício à aparição dos fantasmas
É aqui que as estátuas mostram
A necessidade sem discurso dos seus gestos
Exiladas da vida e da cidade
Exiladas do tempo
Elas convocam
O fragmento a mutilação os destroços
O peixe que navega sem perturbar o silêncio
[ Sophia de Mello Breyner - Geografia, 1967 ] . . . . . . . .
poesia do livro "geografia". introspecção e uma devoção à pausa, ao espaço livre, ao silêncio. releia "aqui, então", "signo" e "um poeta clássico", do mesmo livro, pelo menos. a nudez geométrica é despojamento calculado, é limite para observar o silêncio. a expressão "exiladas da vida" impõe às estátuas a condição de realidade dura: são objetos. os fantasmas são memória do que já houve, ou seja, daquilo que foi vivido. os espaços entre as estátuas permitem que algo apareça. pela visão da poetisa, os gestos colaboram para mostrar o silêncio. o espaço é silêncio. as estátuas são arte e, por algum motivo, estão fora da cidade, exiladas. talvez aqui uma crítica ao fato de que a arte não coubesse na cidade, no contexto do século 20, onde se insere o livro de sophia. o escultor do tempo do eu lírico trabalha com destroços, com fragmentos, parece uma espécie de consciênca de fratura.
a imagem do peixe é brutal: se move mas não rompe o silêncio, é um ideal ético. esse vazio é uma necessidade, um silêncio essencial. o caráter racional no fazer poético lembra o estilo joão cabral de melo neto. fato. . . . . . . . . . . . faísca: por que as obras de arte estariam exiladas? . . . . . . . . . .
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