metade de mim cavalo - poesia de sophia é construção da literatura
poesia "no deserto" de sophia breyner comentada
_ NO DESERTO _
Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino Eu te debelo com espora e rédea Para que não te percas nas cidades mortas Para que não te percas Nem nos comércios de Babilónia Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
[ Geografia, 1967, Sophia M B Andresen ] . . . . . . . . . . .
o primeiro verso é dos mais lindos do livro. é poderoso, sensual, quase um apelo.
"no deserto" é texto metalinguístico, trata da construção do poema. o cavalo é o espirito de criação, ele não se perder em tentações (babilônia) ou na violência e excesso (nínive). daí é necessário domá-lo.
a voz poética mostra que é preciso atravessar esse conflito para alcançar integração mais profunda. o deserto é plenitude silenciosa: lugar onde o sujeito se torna inteiro e onde o poema verdadeiramente acontece.
existe a rédea, a espora e a tensão. depois, unidos, podem ir deserto afora.
trata-se de imagem da criação poética, unidos, poeta e espírito criativo.
. . . . . . . . . . .
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