túmulo de lorca é poesia manifesto - sophia de mello breyner

 

federico garcía lorca 1898 - 1936

uma poema comentado da poesia de sophia breyner:  

   TÚMULO DE LORCA

 Em ti choramos os outros mortos todos
 Os que foram fuzilados em vigílias sem data
 Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
 Tão ignorados que nem sequer podemos
 Perguntar por eles imaginar seu rosto
 Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
 Entre os cornos da raiva sob o peso da força

 Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
 Não repousamos em paz na tua morte
 A hora da tua morte continua próxima e veemente
 E a terra onde abriram a tua sepultura
 É semelhante à ferida que não fecha

 O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
 De Norte a Sul de Leste a Oeste
 Estamos vivendo afogados no teu sangue
 A lisa cal de cada muro branco
 Escreve que tu foste assassinado

 Não podemos aceitar. O processo não cessa
 Pois nem tu foste poupado à patada da besta
 A noite não pode beber nossa tristeza
 E por mais que te escondam não ficas sepultado

   [Sophia de M Bryener Andresen, Geografia, 1967 ]    . . . . . . .  .  .  .   .

    nota_ federico garcía lorca, poeta espanhol, assassinado  em agosto 1936 pelo estado fascista do general franco, no início da guerra civil, naquele país  . . . . . . .  .  .  .  .   .

aqui, poeta se transforma em metonímia coletiva: "em ti, choramos os outros mortos..." -- lorca deixa de ter sua identidade para ser a dos demais, aqueles que sofreram por fazer arte e buscarem liberdade. aqueles que morreram por fazer arte. texto de sophia é, no modo lírico, um poema manifesto.

verso "teu sangue não encontrou nem foz nem saída" -- é um eterno sangrar essa história do assassinato de lorca pelo estado, pelo fascismo. o sangue é mais do que o sofrimento, é denúncia e bandeira da defesa de direitos.  como vêem, não é de hoje que autoritarismos se enfurecem com quem teima em fazer arte... em ser liberto... o poema não aceita a morte de lorca. afirma que ele não está sepultado, uma vez que admitir sua sepultura é ser conivente. como se combate essa violência? fazendo arte. insistindo em viver sob suas vontades, respeitando diversidades e estudando história. respeitando quem é diferente. lendo lorca, lendo brecht, ouvindo caetano, gil, lendo graciliano, lendo e ouvindo emicida, racionais, malala, gandhi, hilda hilst, luther king, paulo cesar pinheiro, chico buarque, gilka machado, carolina de jesus, john lennon, neruda...

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estilo geral do livro : versos brancos prevalecem, linguagem concisa, clareza, influência clássica (presença da mitologia), racionalidade na construção de imagens, tensão entre a ordem e a violência histórica, caráter moderno de linguagem

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