soneto de drummond - destruição - resenha

 

[ beatriz milhazes ]


       
DESTRUIÇÃO

 Os amantes se amam cruelmente
 e com se amarem tanto não se veem.
 Um se beija no outro, refletido.
 Dois amantes que são? Dois inimigos.

  Amantes são meninos estragados
 pelo mimo de amar: e não percebem
 quanto se pulverizam no enlaçar-se,
 e como o que era mundo volve a nada.

 Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
 que os passeia de leve, assim a cobra
 se imprime na lembrança de seu trilho.

 E eles quedam mordidos para sempre.
 Deixaram de existir, mas o existido
 continua a doer eternamente.

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soneto de versos brancos, ou seja, não têm esquema de rima regular. aqui, o caráter lírico parece querer expor sua face melosa, mas não acontece. não é do estilo do poeta mineiro a plenitude da subjetividade. ainda bem.
os termos ligados ao amor, aqui, chamam atenção: cobra, fantasma, inimigos, morte ("deixaram de existir"); doer... 
o poema sugere que os amantes se matam quando se amam. ou morrem porque não pararam de amar. o "existido" seria o resultado do encontro, o amor em si. pode ser.  contudo, lido o texto, fica a sugestão de alguma sensualidade e certo sentido trágico, dentro do amor. novidade zero, para quem conhece literatura de língua portuguesa: amor idealizado, amor que estraga tudo porque acaba logo, guerras em função do desejo, suicídio, dor de cotovelo, lágrimas eternas... e isso vai da idade média até hoje, acreditem. é uma adoração pelo sofrimento que só vendo. parece doença.
já escrevi sobre isto antes, não custa repetir: para essa gente latina, o amor só pode ser legal se for o amor romântico-pra-sempre-24h-por-dia, ou seja, aquele não existe.

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