vento bravo - paulo cesar pinheiro - resenha

 


          VENTO BRAVO
        Edu Lobo & Paulo Caesar Pinheiro

  Era um cerco bravo, era um palmeiral,
  Limite do escravo entre o bem e o mal
  Era a lei da coroa imperial
  Calmaria negra de pantanal
  Mas o vento vira e do vendaval
  Surge o vento bravo, o vento bravo
  Era argola, ferro, chibata e pau
  Era a morte, o medo, o rancor e o mal
  Era a lei da Coroa Imperial
  Calmaria negra de pantanal
  Mas o tempo muda e do temporal
  Surge o vento bravo, o vento bravo
  Como um sangue novo
  Como um grito no ar
  Correnteza de rio
  Que não vai se acalmar
  Se acalmar
  Vento virador no clarão do mar
  Vem sem raça e cor, quem viver verá
  Vindo a viração vai se anunciar
  Na sua voragem, quem vai ficar
  Quando a palma verde se avermelhar
  É o vento bravo
  Como um sangue novo
  Como um grito no ar
  Correnteza de rio
  Que não vai se acalmar
  Que não vai se acalmar

 . . . . . .  .  .  .  .   .   .

memória da escravidão em metáfora de transformação e ruptura histórica. 

imagens duras: “argola, ferro, chibata e pau” — é um brasil imperial marcado por violência, hierarquia racial e silêncio imposto... uma calmaria negra, como se leu acima. o vento (bravo) aqui é a chance de mudar o rumo da história de violência e opressão. sangue novo para refazer história. e esse sangue -- "correnteza de rio" -- não irá se acalmar, ou seja, luta para manter viva a liberdade sem violências.

"quem viver verá vindo a viração": esses termos formam o que se acostumou chamar "aliteração", figura de linguagem a respeito de repetição de sons, no caso, aqui, consoantes. claro está que "brasil imperial" é mera alegoria para o que o brasil da época da música vivia: ditadura militar (1964-85). 

"mas o vento vira" é o verso-clímax. uma ideia de mudança. vento com sangue novo. logo, a opressão, a chibata etc são referência às torturas e mortes que o estado militarizado promoveu. o passado é evocação simbólica da luta presente -- a década de 1970.  existe uma utopia, ao final: o vento “vem sem raça e cor”, o que sugere um futuro em que a liberdade não é privilégio, mas movimento coletivo. 

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